Fada Madrinha: Mas, como nos sonhos, receio que não possa durar muito. Dançará até meia-noite.
Cinderela: Meia-noite? Oh, obrigada!
Fada Madrinha: Oh, não, preste atenção, meu bem: ao soar das doze, a magia cessará e tudo o que
era antes voltará.
(Cinderela)
Obrigada, horário de verão! Normalmente eu não gosto do marco inicial desse horário, já que somos obrigados a
adiantar o relógio e com isso ganhamos um dia de apenas vinte e três horas. Mas, desta vez, eu achei pouco e bom.
Mais cedo, no telefone, era obviamente a Natália. Eu gosto muito da Natália, a gente é amiga desde criança e
tal, mas, sinceramente, de uns tempos pra cá, parece que estamos andando em direções opostas. Claro que, como
sempre, ela estava completamente ensandecida de vontade de sair, especialmente por causa do fim de semana
prolongado, já que o nosso colégio emendou o feriado de 12 de outubro.
Não entendo como ela consegue... a gente foi quarta ao aniversário da Júlia, na quinta ao cinema assistir a O
jardineiro fiel (dou três estrelinhas), na sexta fomos ao ensaio da banda do irmão do Rodrigo e, ontem, todas as
pessoas de Belo Horizonte que não viajaram (ou seja: a Natália, o Rodrigo e a Priscila) vieram para cá ver DVD.
Caramba! Será que ela não sente falta de ficar em casa fazendo nada, não?
Tá, eu não sou antissocial, nem tenho nenhum destes desvios comportamentais de que a Veja vive falando, mas
tem hora que sair cansa, né? Enche o saco essa coisa toda de ter que colocar roupa (tomando o cuidado de não
repetir a mesma por, pelo menos, três semanas), maquiagem, pedir dinheiro para o pai, ouvir sermão sobre os
perigos existentes no mundo atual, encontrar as mesmas pessoas que eu vejo todos os dias, ter que ficar fazendo
carinha boa para não ter que aturar a todo minuto alguém vindo perguntar o motivo da minha braveza... Ufa.
Prefiro sinceramente ficar no meu quarto, meu castelinho encantado, com meus livros, DVDs, computador...
E foi isso que eu tentei explicar pela centésima vez para a Natália quando ela tentou me convencer a sair mais
essa noite. O Sr. Gil é daqueles pais chatos, liga para o meu pai a cada saída dela para perguntar se eu fui também.
Será que ele está achando que nós somos gêmeas siamesas? Que uma só pode ir aonde a outra for? Deixa eu te
contar uma coisa, Sr. Gil, não é assim, não, viu? O tempo da escravidão já passou, se você quiser me contratar para
ser dama de companhia da sua filha, pode ir abrindo a carteira. Cinquenta reais por hora, porque só assim pra dar
conta do pique da Natália!
Só que eu acho que, se eu dependesse disso pra ganhar dinheiro, podia desistir. A própria Natália tem
argumentos bem mais fortes. Em primeiro lugar, a voz fininha dela... à primeira vista todo mundo acha delicadinha,
mas, depois de uns dez minutos, dá vontade de apertar o “stop”, já que é tão aguda que a impressão que passa é
que vai furar o nosso ouvido! Como se não bastasse, a Natália é filha única. Isso significa que nunca teve um irmão
que se recusasse a emprestar qualquer coisa para ela, e com isso ela não desenvolveu a capacidade de aceitar um
não.
Como esperado, ela veio com toda a ladainha à qual eu já estou mais do que acostumada: “Amanhã é feriado, a
gente pode dormir até tarde...”, ela disse com a tal vozinha que, a cada segundo, afina mais.
Eu lembrei a ela que o meu irmão, com certeza, iria aparecer bem cedinho na minha casa junto com os meus
três sobrinhos e que a diversão preferida deles é brincar de acordar a Tia Fani.
Aí ela disse: “Mas ontem você já ficou na sua casa, todos nós ficamos aí com você vendo DVD, ficar todo dia
dentro de casa envelhece...”.
Eu nem tive tempo de responder, e ela continuou: “Se você não for, eu vou ter que mentir para o meu pai, você
vai ter que pedir para o seu pai mentir também, e você não vai querer incentivar toda essa mentirada, vai?”.
Como se o meu pai fosse mesmo mentir por causa dela. Quando eu neguei e rebati cada um dos argumentos, ela
começou a chantagem: “Tudo bem, tá? Aposto que, se eu pedisse para a Júlia, ela iria comigo... mas eu não quero
ir com ela, eu prefiro ir com você...”.
Eu disse a ela que a Júlia tinha viajado para a casa dos avós no interior e que era por esse motivo que ela
preferia ir comigo...
Aí ela apelou: “Fani! Eu estou tendo uma premonição! Tenho certeza de que o amor da sua vida vai estar lá e
você vai perder a chance de conhecê-lo! Depois vai passar a vida inteira solteirona e solitária, só porque não quis
sair comigo esta única noite!”.
Eu lembrei a ela que “esta única noite” foi a mesma coisa que ela falou nas últimas 78 vezes que tentou me
convencer a sair, que essa era a 79
ª vez que ela dizia que esta noite ia ser única e que, se o amor da minha vida
estivesse em um bar desses, com certeza ele não seria o amor da minha vida. O verdadeiro amor da minha vida
naquele momento deveria estar em casa, lendo, ou quem sabe aproveitando a véspera do feriado para fazer
alguma pesquisa importante na internet ou nas enciclopédias que ele deve ter...
Quando ela sacou que eu estava falando realmente sério e que não estava a fim de sair, ela resolveu barganhar.
“Eu pago o táxi sozinha”, ela disse com uma voz desesperada. “E pago também a sua entrada e consumação no
bar.”
Falei que eu não estava à venda e pronto. Foi aí que ela deu a cartada final. Caiu no choro e, chorando, me
implorou, daquele jeito que ela deve ensaiar na frente do espelho: “Pooor faaaavooooooor... eu não pediria se eu
não quisesse ir muuuuuitoooo........ o Mateus vai estar lá e vai acabar ficando com aquela horrorosa da Manuela se
eu não estiver lá para impedir...... buuuuu........”.
Esse “buuu” é bem o toque final. Acho que ela leu muitas revistinhas da Mônica quando era pequena, mas, pra
não dar na cara, ela não fala “buá”, para no “bu”, prolonga o “u” e mistura tudo no choro.
Depois disso, eu cansei e resolvi ir logo, senão ela ia ficar naquele chororô a noite inteira, e, se o Mateus ficasse
mesmo com a Manuela, ela ia me jogar isso na cara pelo resto da vida!
Troquei rapidinho de roupa, prendi o cabelo e fui pra casa dela, que é na rua logo abaixo da minha.
Chegando lá, a menina estava com o guarda-roupa inteiro jogado em cima da cama, sem conseguir escolher o
que vestir.
Sugeri umas três blusinhas, ela pôs defeito nas três. Aí, eu disse que, se ela não se arrumasse em meio minuto,
eu iria embora e ela podia até chorar sangue que eu não voltaria atrás. Ela tratou de vestir qualquer coisa, ficou
mais um tempão no banheiro se embelezando e, finalmente, pegou a bolsa. O pai dela passou pela gente no
corredor e avisou que queria que ela estivesse em casa pontualmente à uma hora da manhã, independente do fato
de amanhã ser feriado.
Finalmente, conseguimos sair e chegamos ao ponto de táxi. Essa história de táxi, a minha mãe não gosta muito.
Ela prefere levar e buscar. Mas só que leva e busca reclamando! Então, quando ela não está em casa, eu acabo
pegando um táxi mesmo. O ponto é aqui do lado, os motoristas todos já me conhecem e, além disso, eu sempre
anoto a placa e mando como mensagem para o celular do meu pai.
Quando a gente chegou ao tal bar, já eram umas dez e meia da noite. Entramos, avistamos um pessoal
conhecido, compramos um refri, a Natália me fez dar umas quinhentas voltas para acharmos o Mateus e
finalmente o encontramos. Ele estava bem em frente às caixas de som, ou seja, o barulho estava de ensurdecer. Eu
comecei a reclamar, e a Natália resolveu ir lá falar com ele, depois de um tempão ensaiando. Eu fiquei surpresa. O
Mateus até que foi bem simpático, se é que dá pra ser simpático tendo que gritar para ser ouvido. Conversou uns
assuntos lá e, de repente, lembrou que hoje começaria o horário de verão.
“Ih, é agora!”, ele falou, mexendo no relógio. “Meia-noite, já está na hora de adiantar uma hora!”
A Natália olhou para mim com uma cara de susto tão grande, que eu até achei que uma formiga lava-pés
estivesse subindo pela coxa dela! Só que aí ela virou para o Mateus, disse que a gente ia dar uma volta e largou o
menino lá, sozinho no meio da pista, que ficou olhando pra gente meio sem entender a pressa. Nem eu estava
entendendo... até que a Natália, já na porta, me lembrou da imposição do pai de estar em casa à uma da manhã!
Com o horário de verão, meia-noite já é à uma hora!
Como eu disse, obrigada, horário de verão! Prometo que nunca mais reclamo da sua existência! Já a Natália
deve estar chorando até agora... no momento em que a gente estava saindo do bar, cruzamos com a Manuela, que
estava chegando naquele minuto! É, acho que em vez dela desperdiçar a lábia comigo, deveria desenvolver uma
tática para amansar o pai. A Cinderela já saiu de moda há muito tempo...
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Fazendo meu Filme
RomanceFazendo meu filme nos apresenta o fascinante universo de uma menina cheia de expectativas, que vive a dúvida entre continuar sua rotina, com seus amigos, familiares, estudos e seu inesperado novo amor, ou se aventurar em um outro país e mergulhar nu...
