capitulo 28

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George Downes: É incrível a clareza que vem com o ciúme psicótico.
(O casamento do meu melhor amigo)

Nem acreditei quando sexta-feira chegou, parecia que a semana não ia acabar nunca mais! Fiz todas as provas
meio no automático. Eu realmente achava que não tinha ido bem o suficiente em Física, mas agora só me restava
rezar e esperar o resultado sair na sexta-feira seguinte, que seria também o dia da festa de final de ano da nossa
sala.
A Natália me contou que o Alan falou no mesmo dia para o Leo a respeito do desprezo da Vanessa em relação ao
presente dele, mas, ao contrário do que ela esperava, ele e a Vanessa continuavam juntos, apesar dele ter ficado
meio chateado.
Confesso que eu fiquei decepcionada. Se alguém me contasse que qualquer pessoa tivesse rido de um presente
que eu passei horas fazendo, eu ficaria com muita raiva dessa pessoa! E mesmo sem ter feito, tomei as dores do
Leo e fiquei ainda com mais raiva da Vanessa. E também muito curiosa para saber quais músicas o Leo tinha
gravado pra ela. Será que ele havia colocado as mesmas do meu CD?
Na sexta à noite, mais para agradecer ao empenho da Natália, que não parou de tentar me animar a semana
inteira, topei ir ao Sexta-Mix, depois de ficar umas três horas convencendo a Gabi a ir também.
O pai da Natália nos levou, e o meu ia buscar às duas horas da manhã em ponto, o que ele fez questão de repetir
20 vezes. Chegamos lá e já estava cheio. A Júlia, a Priscila e o Rodrigo estavam na fila, e eles ficaram meio
admirados, mas pareceram felizes de nos encontrarem.
Eu estava completamente sem graça. O colégio inteiro estava lá e também todas as pessoas que a gente sempre
vê no clube e no shopping.
Exatamente às dez da noite as portas se abriram e a gente entrou, junto com a multidão. O Sexta-Mix é no salão
do clube, que é enorme por sinal, mas em poucos segundos estava lotado de gente. Acho que todo mundo resolveu
aparecer nessa sexta, talvez por causa das férias.
Arrumamos um lugar pra sentar, começamos a olhar as pessoas chegando, a nos situar, a procurar mais rostos
conhecidos... aí o Rodrigo e a Priscila foram dançar, a Gabi disse que ia buscar uma bebida, a Natália foi com a
Júlia procurar o Mateus e eu tive que ficar sentada guardando a mesa.
Eu estava lá, olhando para a multidão, pensando se não devia ter pedido pro meu pai buscar uma hora antes,
quando o holofote focalizou lá no meio a última pessoa que eu esperava encontrar ali... o Leo. Não que ele não
goste do Sexta-Mix, muito pelo contrário, normalmente ele não perde um, mas é que eu pensei que, já que ele está
com a Vanessa e o Sexta-Mix não é um programa muito típico de casais (porque todo mundo vai pra paquerar), ele
não apareceria...
Fiquei tentando enxergar se a Vanessa estava do lado dele, mas o holofote já tinha movido e não deu pra ver
mais nada. A Gabi chegou, e eu a chamei pra dar uma volta. Ela fez uma cara meio de desânimo, e aí eu perguntei
se ela poderia então guardar a mesa. Ela falou que sim, mas que não era pra eu demorar muito. Eu concordei e saí
correndo pro meio da pista de dança.
Encontrei a Natália e a Júlia no caminho, falei que a Gabi estava guardando a mesa, elas falaram que achavam
que ninguém mais ia sentar, que ela não precisava ficar lá, mas eu não tinha tempo pra voltar. Continuei meu
caminho em direção ao meio do salão. Cheguei lá, olhei pra todos os lados, andei em todas as direções e nada!
Comecei a pensar que eu tinha confundido, apesar do Leo ser meio inconfundível... rodei mais um pouco e aí
resolvi voltar pra mesa.
Chegando lá, vi que a Gabi não estava sozinha, estava sentada com duas pessoas. Um menino que eu nunca
tinha visto na vida e... o Leo.
Eu ri pra ele, a Gabi me apresentou ao outro menino, disse que o nome dele era Cláudio, que ele estava fazendo
companhia pra ela enquanto eu não chegava. Aí, o tal do Cláudio me cumprimentou e se virou de novo pra Gabi,
perguntando se ela não se importava que ele continuasse sentado lá, mesmo que eu tivesse chegado, já que o papo
estava tão interessante...
Eu e o Leo trocamos olhares, depois eu olhei pra Gabi e ela nem me viu, já estava entretida no tal papo
interessante de novo... O Leo levantou e perguntou se eu queria tomar alguma coisa. Eu fui andando com ele em
direção ao bar e perguntei que Cláudio era aquele. Ele riu e falou: “Não tenho a menor ideia! Quando eu cheguei
lá, a Gabi já estava conversando com ele e disse que era pra eu esperar porque você tinha uma coisa pra me falar”.
Eu fiz uma cara de surpresa e indignação tão grande que ele começou a rir e falou: “Relaxa, Fani. Eu saquei que
a Gabi falou aquilo só pra eu te tirar de lá quando você chegasse. Está na cara que ela ficou interessada nesse
Cláudio...”.
Eu dei um suspiro de alívio, pelo simples fato do Leo não ter sacado a real intenção da Gabi, que era, com
certeza, me colocar em uma situação constrangedora com ele.
Aí de repente ele me deu uma olhada de cima a baixo, que, por algum motivo, me fez tremer.
“É, Dona Fani...”, ele falou balançando a cabeça de um lado pro outro.
Eu – que não entendi o que aquilo queria dizer – falei: “O que isso quer dizer?”.
Vi que ele ficou meio sem graça.
“Nada... isso não quer dizer nada”, ele falou baixinho, olhando para o relógio. “Tenho que ir agora.”
Eu, percebendo que não queria que ele fosse e me largasse ali naquele lugar cheio de gente desconhecida, com
a Gabi provavelmente ficando com um menino, com o resto do pessoal dançando, falei: “Não vai embora, não...”.
Ele me olhou de novo de cima a baixo, voltou o olhar para cima, parou no meu rosto, me olhou bem no fundo dos
olhos, e eu tremi ainda mais do que naquela primeira olhada. Ele olhou no relógio novamente, ia falar alguma coisa
quando alguém veio por trás e tampou os olhos dele.
Eu desviei um pouco pra ver quem era e lá estava ela.
Eu estava evitando me perguntar onde ela estaria, como se quisesse fingir pra mim que ela nunca tinha existido
e que era apenas uma invenção ruim da minha cabeça. Mas não era. O Leo passou a mão nas mãos dela, que
continuavam tampando os olhos dele, e falou, sem sombra de dúvidas: “Vanessa”.
Ela, então, deu um puxão nele e lascou um beijão. Eu fiquei completamente sem lugar. A princípio senti raiva
dela, depois dele, e de repente fiquei meio triste. Posso mentir pra Gabi, pra Natália, pra quem eu quiser, mas pra
mim mesma não dá... o que eu senti foi realmente ciúmes. Eu nunca tinha visto o Leo beijando ninguém antes...
Fiquei vendo os dois se beijarem e aí percebi que eu não queria mais testemunhar aquilo.
Comecei a sair, sem conseguir tirar o olho dos dois completamente, e então ele desvencilhou-se do beijo, meio
sem graça, e falou: “Você já cumprimentou a Fani, Vanessa?”.
Eu parei, dei um sorriso meio amarelo pra ela, que – com certeza pra me fazer raiva – veio e me deu dois
beijinhos.
“Que bom te ver aqui, querida!”, ela falou com aquela voz enjoada dela. “Quando eu ouvi a Natália falar na saída
do colégio hoje que até você viria ao Sexta-Mix, eu tive que convencer o Leo a vir, afinal, se você, que nunca sai da
toca, apareceria, com certeza hoje seria uma sexta-feira especial...”
Então era por isso! Ela só tinha vindo pra me provocar, pra me provar que eu poderia fazer o que quisesse, mas
que ela continuava com o Leo. Eu fiquei a fim de dar um soco especial na cara dela, mas me segurei. Dei uma
olhada pro lado e por sorte vi a Natália entrando no banheiro. Olhei para o Leo, que estava com uma expressão
meio sem graça, e então virei pra Vanessa e disse: “Espero que seu Sexta-Mix seja mesmo bem especial, querida...”
e rumei pro banheiro, sem olhar pra trás.
O banheiro feminino estava naquela bagunça de sempre. Meninas em todos os espelhos retocando a maquiagem
ou apenas tentando fazer o cabelo parecer melhor, grupinhos conversando, barulho de alguém vomitando dentro
de uma das cabines, barulho de alguém chorando em outra, uma servente sentada observando a movimentação
com cara de sono... no meio daquilo tudo eu vi a Natália em um dos espelhos, passando batom.
Eu andei até ela e falei: “Quero ir embora, vou ligar pro meu pai me buscar agora”.
Ela me olhou como se eu tivesse ficado doida: “Você está brincando, não é, Fani? A gente acabou de chegar!”.
“Não estou”, eu respondi séria. “Eu quero ir embora agora, já tive o suficiente.”
Ela, percebendo que eu estava falando a verdade, replicou: “Mas se você for, eu vou ter que ir também, meu pai
só me deixou vir porque seu pai viria buscar a gente... e o Mateus está aí, inclusive eu acho que hoje eu vou
conseguir finalmente ficar com ele, ele está me dando altas olhadas, você não pode fazer isso comigo...”.
Ela fez uma cara tão triste que eu falei: “Natália, eu dou um jeito dele vir buscar você mais tarde, ou pago um
táxi pra você voltar na hora em que quiser...”.
Eu mal tinha falado isso e a porta do banheiro abriu, e por ela entrou uma Gabi toda saltitante. Ela veio em
nossa direção, nos abraçou e falou pulando: “Gente, vocês não acham que o Cláudio é lindo?? Ele tem 18 anos,
mora em São João del-Rei e veio a BH só pra fazer vestibular! Mas, se ele passar, ele vai morar aqui! Ele está
hospedado com o primo dele, que mora pertinho da minha casa...”.
Nessa hora ela percebeu que nem eu nem a Natália estávamos compartilhando da felicidade dela. Ela tirou os
braços de cima da gente e perguntou: “O que aconteceu?”.
A Natália só deu um suspiro e olhou pra mim. Eu falei: “Eu quero ir embora, Gabi. Vou ligar pro meu pai me
buscar. Mas vocês podem ficar aí, eu pago um táxi pra vocês voltarem”.
Ela olhou pra Natália como se não estivesse entendendo o que eu estava falando e aí disse: “Cadê o Leo? Da
última vez que te vi, você estava conversando com ele toda animada, o que rolou?”.
A Natália fez uma expressão de que estava começando a entender e disse pra Gabi: “Eu acabei de ver a Vanessa
chegando...”.
E aí as duas se viraram pra mim, esperando que eu falasse alguma coisa. Eu olhei de uma pra outra e aí falei:
“Eu quero ir embora, será que eu posso?”.
“De jeito nenhum!”, as duas falaram quase ao mesmo tempo.
A Natália tirou uma escova de cabelos da bolsa, começou a pentear meu cabelo, enquanto a Gabi puxava minha
saia um pouquinho mais pra cima. Eu me desvencilhei das mãos delas e perguntei: “O que vocês pensam que estão
fazendo?”.
“Você vai provar pra Vanessa que ela não tem a capacidade de estragar a sua noite”, a Natália respondeu.
A Gabi completou, levantando uma sobrancelha: “Inclusive quem vai estragar a noite dela vai ser você!”.
Uma riu pra outra e aí eu falei: “Ah, tá. Obrigada por me informarem. Mas será que vocês podem me explicar
como e por que eu faria isso?”.
Elas se entreolharam e depois me olharam como se eu tivesse três anos de idade. A Gabi falou primeiro: “Você
tem que ficar perto dos dois e mostrar que você está se divertindo muito, mas muito mais do que eles dois juntos!”.
“E você vai ter que jogar o maior charme pro Leo também”, a Natália explicou. “Tipo, não tira o olho dele e,
quando ele olhar, dê um sorrisinho meio enigmático e depois tire o olho, bem devagarzinho...”
A Gabi falou de novo: “E se algum menino começar a te olhar, retribua. Se alguém vier conversar com você, dê
bola e sorria muito, como se realmente estivesse interessada. Mas só se o Leo e a Vanessa estiverem olhando”.
“Como se estivesse interessada, não!” A Natália deu um tapinha no ombro da Gabi e em seguida olhou pra mim.
“Realmente se interesse. Olhe para todos os meninos e ache mesmo um bem gatinho, dê um jeito de ficar com ele
e beije-o bem na frente dos dois!”
Eu fiz uma cara de nojo pra ela e falei: “Natália, no dia em que eu ficar com um cara que eu nunca vi antes na
vida, você pode me internar! Você está louca! Vocês duas estão loucas, aliás!”.
Acho que a Natália percebeu que não devia ter falado aquilo e tentou consertar: “Tá, tá, eu sei que você não
ficaria, mas, pelo menos, finja!”.
“Fani, faça o que você quiser, desde que seja com o intuito de provocar ciúmes no Leo e inveja na Vanessa”, a
Gabi concluiu meio impaciente.
Eu olhei para elas e tornei a perguntar: “Por quê?”.
A Gabi tomou a dianteira e falou: “Porque sim! Porque você deve isso pra você mesma e pro Leo também!”. E a
Natália continuou: “Fani, a Vanessa acha que pode pisar em quem quiser exatamente porque ninguém faz nada...
você tem que dar o troco!”.
Eu olhei pras duas disposta a falar que não ia fazer nada daquilo, mas aí lembrei da Vanessa rindo do CD do
Leo... e depois beijando-o na minha frente e falando que esse Sexta-Mix seria especial...
Pois eu ia provar pra ela o quão especial ele poderia ser. Peguei o batom da mão da Gabi, passei, virei o cabelo
de lado, dei um sorrisinho pro espelho, olhei pras duas e falei: “Estou pronta!”

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