Vivian: Eu agradeço todo esse jogo de sedução que você está fazendo, mas deixa eu te dar uma
dica: eu já estou garantida.
(Uma linda mulher)
Tem algo de triste nas noites de domingo. Mesmo quando a gente aproveitou (ou descansou) o fim de semana
inteiro, domingo à noite sempre tem um ar de melancolia. Acho que é por causa da segunda-feira iminente e o fato
da gente ter que esperar tantos dias até o próximo fim de semana.
Eu sempre ficava meio deprimida nessa hora, mas dessa vez foi diferente...
Eu e a Gabi fomos ao cinema, vimos o tal filme indicado, depois de eu ter ficado uma hora e quarenta minutos
tentando convencê-la a ver um filme não comercial. Na verdade, eu nunca fui fã de filmes de arte, mas se o
Marquinho falou, com certeza devia ser bom. E nos surpreendemos! Ficamos completamente encantadas com a
singeleza desse filme (cinco estrelinhas), pensando sobre todos os filmes desse gênero que a gente deve ter
perdido por puro preconceito, por achar que só os filmes de Hollywood é que mereciam o preço do ingresso...
De lá, sentamos na sorveteria e começamos a conversar. A Gabi me perguntou quem realmente tinha me falado
do tal filme, que ela sabia perfeitamente que não tinha sido o meu irmão, já que com três filhos bagunceiros ele
mal tem tempo para ver um DVD, que dirá ir ao cinema. Dei um suspiro e contei para ela a história do corredor,
que o Marquinho tinha me dito que esse filme era imperdível e que ia querer ouvir meus comentários depois.
A Gabi ficou um tempo me olhando, de repente levantou, pagou a conta dela, e falou: “Vamos lá em casa um
pouquinho?”.
Fui, sem argumentar, já que quando a Gabi fica meio misteriosa assim é melhor concordar de uma vez, senão ela
desiste de contar a ideia ou o que quer que seja que estivesse na cabeça e quem fica curiosa depois sou eu.
Chegando lá, fomos para o quarto dela, e ela, sem falar nada, pegou o aparelho de telefone e colocou na minha
mão.
Eu fiquei olhando sem entender.
“Liga!”, ela falou.
“Como assim? Pra quem?”, eu perguntei, realmente sem saber.
“Você sabe muito bem pra quem!”, ela respondeu. “Liga logo pra ele, senão eu não deixo você sair da minha
casa hoje. Já que é pra você ficar nessa obsessão, que pelo menos seja por uma coisa real, que você descubra mais
sobre ele e não fique apenas nesse platonismo aluna-professor! Anda, liga logo!”
Eu tentei argumentar que não lembrava o telefone de cabeça, mas ela disse que tinha certeza de que eu sabia
de cor e salteado e que, se eu não ligasse logo, ela ia ligar para a Natália e contar da minha paixão e que aí todo
mundo do colégio ia ficar sabendo rapidinho...
Chantagem não, né? Eu fechei a cara, falei que ela não podia me ameaçar, mas aí ela falou: “Fani, isso é sério...
eu realmente queria que você ligasse para ele na minha frente, para eu ver até que ponto isso é real ou é coisa da
sua cabeça... você é meio... sonhadora! E você sabe disso...”.
Eu fiquei olhando para ela e para o telefone e, por orgulho, pra provar pra ela que eu não estava inventando
coisíssima nenhuma, liguei. E ainda coloquei no viva voz. A Gabi pegou o gravador dela e apertou “REC”. Fiz essa
transcrição depois para pregar na minha agenda, pois essa foi uma noite de domingo que eu não quero nunca mais
esquecer...
TELEFONEMA “FANI – MARQUINHO”.
Domingo – 17 de novembro – 20h07 às 20h21
Marquinho: Alô?
Fani (alterando a voz): Poderia falar com o Marco Antônio?
Marquinho: É ele!
Fani: Oi...
Marquinho: Quem está falando?
Fani: Eu.
Marquinho: Eu quem?
Fani: Eu...
Marquinho: Ah, lembrei! A menina misteriosa!
Fani: A-hã...
Marquinho: Puxa, achei que você tivesse se esquecido de mim...
Fani: Tsc, tsc, tsc.
Marquinho: Lembra do nosso combinado? De você falar pelo menos um pouquinho mais a cada telefonema?
Fani: A-hã...
Marquinho: Então...
Fani: (suspiro)
Marquinho: Já sei. Vou fazer umas perguntas e você me responde com “sim”, “não” ou “não sei”, pode ser?
Fani: Sim.
Marquinho (rindo): Ok! Primeira pergunta: Você é minha vizinha?
Fani: Não sei! Onde você mora?
Marquinho: Nada disso... hoje só eu faço perguntas, de uma outra vez a gente troca, combinado?
Fani: Sim...
Marquinho: Bom, se você não é minha vizinha... você é minha colega de violão?
Fani: Você toca violão?!
Marquinho: Já entendi que a resposta é não. Próxima pergunta: Você é amiga da minha irmã?
Fani: Você tem irmã?
Marquinho: Acho que isso não está dando certo... se você não seguir a regra de só responder o que eu pergunto em vez de ficar perguntando também, eu vou parar com o
jogo.
Fani: Tá, desculpa.
Marquinho: Você é minha aluna?
Fani: ...
Marquinho: Oi, tem alguém aí?
Fani: Sim.
Marquinho (meio rindo): Sim o quê? Tem alguém aí ou você é minha aluna?
Fani: Sim, sou sua aluna. Mas não estou achando esse jogo justo. Por que eu não posso perguntar também?
Marquinho: Porque fui eu que o inventei... e também porque agora você tem desculpa para me ligar de novo amanhã e inverter os lugares! Combinado?
Fani: Ok... mas acho que eu saí perdendo...
Marquinho: Que nada, você ainda está ganhando. Você sabe quem eu sou, que eu tenho irmã, que faço aula de violão, que sou professor de Biologia... e eu só sei que você
é minha aluna! Mas nem sei de que série e de que colégio... humm, pensando bem acho que vou fazer mais umas perguntinhas...
Fani: Não, por hoje é suficiente. Tenho que desligar. Está tarde.
Marquinho: Ok, menina misteriosa... muito bom te ouvir de novo... posso esperar seu telefonema amanhã?
Fani: ...
Marquinho: Tá bom, não vou te pressionar. Mas eu gostaria muito que você ligasse... estou adorando te conhecer melhor....
Fani: (suspiro)
Marquinho: Um beijo pra você!
Fani: (som de beijo estalado)
FIM
Eu desliguei e olhei pra Gabi com a maior cara de “bem feito!”, já que provei que não estava mentindo ou
sonhando quando disse que ele me dava papo.
Ela ficou pensando um pouco, mas concordou comigo, falou que ele realmente parecia muito disponível, mas
que era mesmo pra eu ligar amanhã e fazer um monte de perguntas, já que ele mesmo sugeriu isso. Eu disse que
era isso mesmo que eu ia fazer, e aí a Gabi mudou completamente de assunto: “Fani, e sobre o Leo?”.
Eu, que ainda estava nas nuvens, nem lembrando do resto do mundo, só perguntei: “O que é que tem o Leo?” E
ela: “Você vai deixar ele se afastar assim, sem fazer nada a respeito?”.
Eu suspirei, pensei um pouco e falei: “Sabe, Gabi, se tem alguém se afastando, esse alguém é ele. E se alguém
tem que fazer algo a respeito é ele também. Eu continuo como sempre fui, no mesmo lugar”.
Aí ela se levantou e disse meio brava: “Fani, sinceramente, acho que não importa quem está se afastando, o que
importa é a amizade que pode ficar bem prejudicada nessa história toda... sinceramente, se você estivesse se
distanciando de mim, eu faria alguma coisa, te procuraria pra conversar e tal... não ia deixar um mal-entendido ou
sei lá o quê separar a gente, acabar com a nossa amizade!”.
Saí da casa dela pensando que eu tinha muito mais coisas na cabeça para me preocupar naquele momento do
que com as crises do Leo. Como, por exemplo, o fato de que, no final do semestre, podemos ir sem uniforme no
colégio, e eu ainda tinha que decidir com que roupa iria à aula no dia seguinte para o caso de passar pelo
Marquinho no corredor...
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Fazendo meu Filme
RomansaFazendo meu filme nos apresenta o fascinante universo de uma menina cheia de expectativas, que vive a dúvida entre continuar sua rotina, com seus amigos, familiares, estudos e seu inesperado novo amor, ou se aventurar em um outro país e mergulhar nu...
