Você é a minha casa

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Silêncio no carro. Os únicos sons vinham do motor e das setas para virar em alguma rua ou avenida. O caminho até a casa de Jorginho pareceu infinitamente mais longo do que o normal e Kepa ficou o tempo todo observando as paisagens pela janela. A respiração dele estava pesada e rápida.

— Nada que eu disser vai te deixar mais calmo, mas saiba que isso vai se resolver — Jorginho olhou de relance e passou a mão no cabelo do espanhol, bagunçando-o levemente.

— Desculpe te encher com isso. Preciso do seu apoio.

— Estou com você — Jorginho segurou a mão dele enquanto o carro estava parado em um cruzamento. — Não importa o que aconteça.

Kepa mordeu os lábios e prendeu-se às memórias. Adquiriu o hábito de se perder no passado por conta da dureza que enfrentava no presente. Perguntava-se internamente quantas vezes e por quanto tempo ainda precisaria sofrer.

Jorginho odiava vê-lo triste. Era injusto. Sempre que as coisas começavam a melhorar acontecia algo. Parecia nunca ter fim.

Os dois chegaram em casa e o espanhol foi direto para um longo banho. Pelo menos a água quente o acalmou. Ao sair do chuveiro, enrolou-se em uma toalha e se trocou no quarto. Jorginho foi à cozinha e começou a preparar o jantar. O plano de levá-lo para comer e beber em um restaurante, e assim ver outras pessoas em um clima agradável, foi por água abaixo. Mas aquilo não era problema para ele. Sairiam outro dia. Depois do futebol, cozinhar era o que mais gostava de fazer, como um bom italiano.

O goleiro sentiu o cheiro do tempero característico e das folhas de manjericão levemente refogadas. Desceu e foi à cozinha. Encontrou o outro focado no preparo de camarões em uma frigideira. Kepa se sentou em um banco de frente para o balcão em que Jorginho se apoiava. Sorriram um para o outro.

— Você é tão paciente... como consegue?

— Não sei — o brasileiro deu de ombros. — E como você consegue continuar?

— Também não sei. Acho que deveríamos ter essas respostas.

— É... — ele desligou as chamas do fogão e fitou os olhos castanhos do espanhol. — Quer jantar?

— Não estou com tanta vontade, mas a sua comida me faz ter fome — Kepa levantou e foi para perto dele.

— Você não vai servir a comida antes de me dar um beijo.

— Chantagem emocional é errada em tantos níveis... — ele riu.

— Me conhece tão bem e ainda assim não sabe como as coisas funcionam comigo. Era só uma desculpa para sentir o seu perfume.

— Quer experimentar? É tão básico...

— Não é básico se lembra você — Jorginho o abraçou e fez o que gostava: apoiou o queixo no trapézio do espanhol, exatamente a região onde ele borrifava o perfume.

Intenso. Levemente convidativo. Misterioso e envolvente. Notas quentes de rum e baunilha transportavam-no para outro mundo. Parecia uma viagem de barco por águas tranquilas, exatamente o que Kepa deixava transparecer.

Ele sabia que o interior do espanhol era o oposto, mas não era tão difícil de ser compreendido. O cheiro de baunilha sobressaiu-se em meio aos outros. Tangerina verde completou e marcou o resíduo olfativo.

Jorginho reconheceu o sutil cheiro de tangerina porque bebera um drink marcante anos antes em Napoli, onde era feito um zest com a casca da fruta sobre a bebida pronta. Era inconfundível. Era a zona de conforto dele. Reminiscências de um tempo feliz na Itália.

Cartas | Kepa ArrizabalagaOnde histórias criam vida. Descubra agora