+18 | Completo | Há quem acredite em providência divina, propósitos ocultos. Igor Asimov não é uma dessas pessoas. Para ele, as certezas alheias não passam de ilusão e a vida é um grande palco de improviso, com algumas coincidências vez ou outra. Ma...
"Perder a paciência é perder a batalha." Mahatma Gandhi
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Deixei a água fria escorrer pela minha pele e levar as impurezas consigo.
Havia passado na farmácia primeiro, comprado um soro para lavar as feridas antes do banho. No entanto, nenhum soro seria capaz de limpar as energias ruins de topar com aquele motociclista arrogante.
Então tomei meu banho, reservei óleos essenciais para acalmar o espírito e fiz minhas preces para livrar-me da inhaca daquele homem pavoroso. Depois de acalmar os ânimos, assumi que teria a paz e o aconchego do meu lar.
Não poderia estar mais enganada.
Nem a minha casa estava a salvo das armações do Destino. A poluição sonora que atravessou a parede entre os apartamentos não me permitiu curtir o silêncio e a calmaria daquela noite de domingo. Pelo visto eu teria de suportar mais provações ainda.
Não basta eu ter me estropiado por conta daquela imundiça que não sabe parar num cruzamento, preciso aguentar zoada de vizinho tarde da noite.
Voinha costumava dizer "burro quando descansa carrega pedra". Ela estava certíssima.
Eu só não esperava aquela quantidade de pedras. Até no meu descanso eu teria de me esforçar e tentar me resolver com o(s) novo(s) morador(es) do apartamento vizinho? Maldade.
Haja paciência!
Eu, que costumava contar bênçãos e agradecer pelas pequenas graças alcançadas entre o nascer e o pôr do sol, perdi as estribeiras e comecei a enumerar os desprazeres.
Saldo do dia: braços ralados ardendo mais ainda pelo contato com o tecido do roupão de flanela, tímpanos quase estourando, a ameaça de uma dor de cabeça monstruosa e uma tonelada de ódio.
Eu não deixaria por isso mesmo. Não, essa não era eu. Nunca me calaria e suportaria desaforo de gente que não pensa no próximo.
Fosse quem fosse, iria abaixar o som, sim (querendo ou não), e me deixaria relaxar e dormir tranquila feito bebê de barriga cheia.
Nesse ímpeto, arregacei as mangas e saí pisando firme. Determinada. Esse era meu estilo.
Nem bati na porta, com aquela zoada, ninguém ouviria. Então apertei a campainha, sucessivas vezes... até me lembrar de que estava com defeito há séculos. A senhora Virgínia, proprietária e antiga moradora, não se dera o trabalho de consertar porque não gostava de ser perturbada pelo tilintar inconveniente.
Ai, ai, ai... E agora, José?
Sem saída, liguei para a portaria na esperança de que, ao menos, o interfone do apartamento ao lado estivesse funcionando.
Se estava ou não, continuei sem saber. Só sei que, pelo sim ou pelo não, o porteiro insistiu em vir pessoalmente para resolver o assunto.
Em menos de 5 minutos, um homem alto, de semblante severo — a despeito do rosto bem desenhado —, veio em minha direção. Nunca havia o visto antes, entretanto, quando ele chegou mais perto, desejei tê-lo conhecido tempos atrás.
Senhor Bonito, segundo minha opinião. Ítalo Silva, segundo o nome bordado no uniforme. Olá, Ítalo! Você é novo por aqui, constatei, sondando aquele homem maravilhoso de cima a baixo.
Quase puxei conversa, mas desisti no meio do caminho. Quando ele tirou o molho de chaves do bolso (muito suspeito, levemente perturbador, e que me levou a questionar se ele teria chaves reservas de todos os moradores), vi a aliança enorme em sua mão esquerda e ganhei um banho de água fria.
Que pena. Lamentei brevemente. E parabéns a quem quer que seja a metade de sua laranja.
Afastando os pensamentos da beleza do porteiro, um galã de novela da vida real, acompanhei, concentrada, seus próximos passos. Nunca me arrependi tanto de ter prestado tamanha atenção em algo.
Ao abrir da porta, me deparei com uma cena desagradável, mas esperada, apesar de imprevisível. Quem estava do outro lado e era o responsável pela barulheira? Ele mesmo. O demônio sobre duas rodas.
O senhor "sou bom demais pra seguir leis de trânsito" tinha quatro loiras padrão top model em cima dele.
Sequer se perturbou com a abertura da porta e a nossa entrada em seu mausoléu, de tão alta a música e do quanto estava submerso naquela experiência grupal com clones da mesma mulher.
O que mais me surpreendeu foi a postura do porteiro. Sem perder a pose, ele andou até a caixa de som, desligou-a e acabou com a festa do sem noção.
Vagarosamente, o babaca empurrou a moça que estava sentada em seu rosto e nos fitou, como se questionasse a razão pela qual invadimos o seu covil.
— Sua vizinha reclamou do barulho — afirmou Ítalo, categórico. — Preciso lembrar que é proibido som alto após as 22h?
— Não — afirmou, inexpressivo.
— Então sugiro pedir desculpas pelos transtornos e não repetir a infração. — Ele deu um sorriso afetado, pediu-me licença e saiu.
Depois da partida do porteiro, aguardei por uma retratação... À toa. Ele tomou seu tempo enquanto corria os dedos pelas madeixas loiras de uma das mulheres que não havia se apartado dele e continuou o chupando a despeito da interrupção.
Estava pouco se lixando para mim e para o quanto ele me prejudicou naquele dia desastroso. Enrolava para se pronunciar por pura indiferença.
— Tá afim de assistir? — perguntou-me, por fim, com sua voz monótona.
Bufei, incrédula. O fulano demorara uma eternidade para me soltar essa?
— Não? — indagou ele, frente a minha linguagem corporal que gritava uma negativa. O canto da sua boca se curvou, mas isso mal poderia ser considerado um sorriso. — A porta da rua é a serventia da casa, então.
Girei sobre os calcanhares e me prontifiquei a sair. No entanto, antes de cruzar a porta, me detive.
— Só... — Cerrei o punho buscando forças para não o xingar até a sétima geração. — Por favor, não faça tanto barulho. Alguns de nós, meros mortais, precisam acordar cedo pra trabalhar.
Dito isso, fui embora sem olhar para trás. Caguei pra reação desse playboyzinho malcriado. Já havia dado ousadia demais para aquele coiso ruim. Não lhe concederia o poder de desalinhar meus chacras, por assim dizer.
No dia seguinte, presidiria uma importante reunião de negócios. Aparecer com olheiras ou indícios de estresse acabaria com a boa imagem que eu pretendia manter.
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