+18 | Completo | Há quem acredite em providência divina, propósitos ocultos. Igor Asimov não é uma dessas pessoas. Para ele, as certezas alheias não passam de ilusão e a vida é um grande palco de improviso, com algumas coincidências vez ou outra. Ma...
"Um mesmo teto nos reuniu, depois um mesmo coração."
Étienne Gilson
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Igor dormia de barriga para cima, com a mão em minha coxa, segurando minha perna sobre si. Seu riso, tão solto comigo, permanecia estampado em seu rosto mesmo durante o sono.
Acordar com as galinhas trazia benefícios em verdade. Observá-lo era um deles. O jeito como ele instintivamente se ancorava em mim, não importava a ocasião, fazia com que eu me sentisse tão desejada...
Noutras vezes, o bônus vinha na forma de carícias (trocadas) e cochichos banais. O sr. Asimov tinha inúmeros talentos ocultos. Um dos meus favoritos era sua habilidade para transformar a esquisitice do pós-sexo em algo não constrangedor.
Fosse emendando com uma rapidinha ou propondo conversas sobre uma miscelânea de assuntos — variando dos mais comuns, feito o preço da gasolina, aos mais complexos, como a origem do universo —, ele sempre evitava momentos de estranhamento.
Talvez fosse alguma habilidade dos homens reservados. Nenhum falador com quem tive o desprazer de me deitar sequer chegara perto do que Igor fazia com naturalidade. Em todos os sentidos possíveis.
O encontro, o jantar à luz de velas (com um miojo até decente), os beijos envolventes pedindo por mais e mais, cada toque preciso... Era inegável: ele caprichava tanto no quadro geral quanto nos detalhes.
Por esse cuidado desmedido, eu poderia pedir "só mais uma vez" infinitas vezes.
Levantei-me com todo cuidado do mundo com a intenção não o acordar. Falhei em minha tarefa. Quando menos esperava, enquanto vestia minha camisa, uma voz arrastada, sonolenta e áspera me interditou.
— Mulher minha não pode andar malvestida assim — protestou, levantando-se da cama aos arrastões, com um ar brincalhão. Falava sério e ao mesmo tempo o dizia com a intenção de me infernizar.
Parte de mim se ofendera. E insistia em retrair-se, erguer muros e manter todas as barreiras protetoras de minha intimidade. Partilhara com ele precisamente sobre a questão das minhas roupas e quanta influência esse tópico exercia sobre mim. Mesmo assim, ele me inventara essa! A vontade de o repreender e xingá-lo até não poder mais bateu forte.
A outra parte soltou fogos de artifício. O sr. Insensível dera nome aos bois. Havia ouvido da própria boca do Igor Asimov que eu era sua mulher. Com todas as letras e sem metáforas ou trocadilhos sexuais.
— Homem meu não age como se eu fosse submissa a ele — retribuí seu desagrado numa cortada rápida, mais entretida do que ultrajada (como o tom de voz sugeria).
— Então vamos negociar — propôs ele. — Eu faço uma concessão, você também. — Lançou-me uma de suas samba-canção, a qual segurei graças aos bons reflexos. — Não negue a um miserável homem o privilégio de admirar uma grande gostosa desfilando seminua — pediu, unindo as mãos em um gesto de súplica.
Assanhado...
— E se ela não quiser? — levantei o questionamento só para devolver a perturbação, despretensiosa.
Esperava uma ofensiva, confesso. Igor fazia o tipo atrevido. Em minha concepção, ele soltaria alguma resposta ferina para me induzir a ser como suas loiras e andar confortavelmente por aí quase sem roupa. Entretanto, ele contrariou minhas expectativas. Quando abriu a boca, tive uma surpresa agradável.
— Ele vai deixar a gostosa em paz e se lamentar em silêncio por ter perdido uma oportunidade de ouro — afirmou, vestindo a própria samba-canção que acabara de pegar numa gaveta do closet.
Diante de sua reação, entrando em um acordo implícito em meus gestos, demonstrei minha disposição em ceder naquilo que eu pudesse — e não fosse contra meus princípios ou mesmo em desacordo com quem eu era —, na esperança de que essa fosse mais uma de nossas reciprocidades.
Retirei a camisa, vesti a peça quase idêntica à sua e me aproximei dele, pondo-me de igual para igual.
— Melhor assim? — perguntei, fingindo timidez. Fingindo muito mal. Perto dele não havia vergonha alguma. Seu olhar não me constrangia. Além do mais, seu descaramento era contagiante.
Ele afastou minhas tranças e colocou meu cabelo para trás, garantindo uma visão mais privilegiada de meus seios.
— Mil vezes melhor. — Lançou-me o velho olhar predatório e me comeu com aqueles globos azuis que iluminavam sua face.
Avançando em minha direção, envolveu-me com ternura. Nos seus braços, ao som do canto dos passarinhos do outro lado da janela, no friozinho do ar-condicionado, com o beijo daquela boca quente a invadir o abraço, senti-me segura.
Dono de beijos letais, capazes de provocar rendição e te deixar propensa a topar qualquer parada, Igor transformava cada encontro de lábios em uma declaração de profunda devoção. E combustível para toda sorte de desejos.
A muito custo, nós demos uma pausa no trabalho das bocas. De testas coladas, respirações ruidosas e corpos latejantes, dominamos o desejo antes que ele nos dominasse e não saíssemos do quarto antes de o dia virar noite.
Nesse clima de entrosamento, antes de abrir a porta e sairmos para tomar café, ele tomou minha mão, beijou-a e me fez um convite surpreendentemente agradável.
— Senhorita Nkosi, aceitaria ser apresentada ao meu mundo oficialmente? — Arqueou uma sobrancelha e ficou me olhando por cima da mão, aguardando a minha resposta.
Anuí com a cabeça, dando um sorriso deslumbrado e me lançando nos braços do sr. Asimov, disposta a ceder aos meus anseios e não me atentar a mais nada. Àquela altura, pouco ligava se a alimentação das próximas 24 horas fosse pau e água.
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Serasse vai dar bom?
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