+18 | Completo | Há quem acredite em providência divina, propósitos ocultos. Igor Asimov não é uma dessas pessoas. Para ele, as certezas alheias não passam de ilusão e a vida é um grande palco de improviso, com algumas coincidências vez ou outra. Ma...
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Não bastava eu ter de acompanhar aquele sujeito mequetrefe durante todo o casamento. Antes disso, a vida precisou caçoar de mim, com gosto.
As cerimonialistas, na correria, tratavam dos últimos ajustes e situavam os padrinhos na ordem correta de entrada. Enquanto me dirigia ao fim da fila, para ocupar minha posição, meu maldito salto quebrou, pisei em falso e, ainda por cima, a correia do outro pé da sandália arrebentou.
Experimentei uma breve morte. Tombando para o lado, vi a vida transcorrer em câmera lenta, com direito de reprise apenas para os piores momentos. Então, quando uma mão laçou minha cintura, o susto teve um fim abrupto.
Encontrei-me a poucos centímetros de um rosto conhecido, de traços marcantes e olhos azuis ferinos. Seu cabelo preto, naturalmente alinhadíssimo, mantivera-se intacto durante o resgate, bem como seu semblante, inabalável.
O sr. Asimov, prestativo, de forma genuína (e surpreendente), havia acabado de me segurar e impedido que eu beijasse o chão.
Por um instante, tive vontade de empurrá-lo, mandá-lo para longe apenas para me afastar do seu toque. Não conseguia desassociar as péssimas impressões — e a própria imagem — da sua pessoa. A repulsa era minha primeira sensação, instintiva.
Contudo, o receio de me estabacar falou mais alto que o orgulho. Deixei-me ser resgatada por aquele homem que estava longe de ser um príncipe encantado ao resgate de uma donzela indefesa.
Igor não parara no movimento de tango para me proteger da queda. Ainda solícito, também me ajudara na tarefa de manter o equilíbrio sobre um pé só até eu conseguir desatar a outra correia e, quando descalça, me sustentar sozinha.
Entretanto, nenhuma ajuda apagava a falta de sorte que rondava minha vida desde o primeiro encontro com aquele depravado.
Contra todas as expectativas, o raio caíra duas vezes no mesmo lugar, na minha vida. Duplamente azarada, sentei-me num batente, à entrada do solar, e revisitei toda sorte de xingamentos entre dentes. Suspirei, exaurida, com vontade de pedir dois altos, ir para casa, tomar uma água e voltar com um pouco de sal grosso dentro da bolsa carteira.
Para meu completo desespero, isso era inviável.
A noiva mais atrasada ainda estava no salão, começara a se maquiar e não demoraria muito. Restava pouco tempo hábil para resolver meu problema. Seria vergonhoso desfilar pelo tapete vermelho tentando me equilibrar sobre sapatos lascados, virando o próprio cavalo manco.
Tão ruim quanto essa alternativa, seria caçar, dentre as convidadas, alguém com a mesma numeração de sapato que eu. Além de improvável, duvidava que houvesse uma alma desprovida de vaidade e cheia de altruísmo disposta a ficar descalça apenas para poupar a madrinha azarada de uma caminhada da vergonha em pleno casamento da prima.