+18 | Completo | Há quem acredite em providência divina, propósitos ocultos. Igor Asimov não é uma dessas pessoas. Para ele, as certezas alheias não passam de ilusão e a vida é um grande palco de improviso, com algumas coincidências vez ou outra. Ma...
"Você me laçou, me prendeu, fui com você arrastada pelo seu ímpeto, pela surpresa em me ver de um dia para o outro sua, você que era apenas uma fantasia, um fetiche, era pra ser apenas um 'se' na minha vida, se ele existisse, se me desejasse, se surgisse, e você surgiu e instalou o céu e o inferno no mesmo playground."
Martha Medeiros
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Andávamos acima da velocidade máxima permitida na rodovia. Ele parecia desesperado para chegar ao nosso destino. Como se o lugar fosse evaporar se não chegássemos em questão de segundos.
Cerca de uns 100 quilômetros de distância dos limites da nossa cidade, estacionamos à frente de um resort luxuoso e descemos de sua moto num pulo. Quase puxada por ele, entrei no saguão e fui banhada pelas luzes dos lustres em estilo contemporâneo. Subimos ao quarto nesse mesmo pique
O sr. Asimov, no auge do seu cavalheirismo de meia-pataca, abriu a porta para mim e me ofereceu passagem com um "primeiro as damas". Seu gesto, adorável sob o ponto de vista de muitos, suscitou mais uma dose de revolta em mim e rendeu uma breve bronca sobre o teor machista de sua expressão — isso sem entrar no problema do cavalheirismo em si.
Calmo, apesar das reclamações, ele apenas deu aquele irritante meio sorriso e continuou agindo como se eu não pudesse mover um dedo por conta própria e precisasse de ajuda — e do apoio de suas mãos — até para andar.
Revirei os olhos ante sua irredutibilidade. Indisposta, sem o intuito de iniciar uma discussão num potencial momento de relaxamento, no qual imperasse a tranquilidade, segui-o a contragosto.
Não fiquei desgostosa por muito tempo. Suspeitava de seus propósitos com toda aquela armação. Igor não era homem de se empenhar tanto à toa.
Uma trilha de pétalas de rosas vermelhas sobre o chão guiava o caminho até a cama onde toalhas em formato de cisnes e um buquê pomposo, composto por uma variedade de flores, se encontravam dispostos em perfeita harmonia.
— Não acredito. — Meneei a cabeça em negativa, sem confiar na minha própria visão.
— Eu prometi flores, não prometi? — Ele elevou as sobrancelhas de um jeito cômico. Ainda empenhado, segurou o casaco do meu moletom quando o removi e, só então, retirou sua jaqueta preta de couro e guardou as duas peças juntas.
Tô perdendo o resto do juízo ou o sr. Asimov virou o príncipe dos românticos da noite pro dia?
Não. Não fora assim tão de repente. Havíamos percorrido uma estrada longa, sinuosa, cheia de declives e limitações. E aquele ambiente cinematográfico era um sinal. Um sinal verde para acelerar com tudo e seguir em frente.
Igor me mostrara a que veio desde o dia um. Provou-se um egoísta, tratante, mulherengo, o pacote completo do cafajeste moderno. Ele definitivamente não era o tipo de homem que reservaria uma suíte num estabelecimento daquela qualidade, com aquela decoração extra, a troco de dois dedos de prosa.