Mahatma Pines.
Comecei o meu primeiro ano medicina geral completamente desmoralizada. Tipo, estou a indo a faculdade porque não quero ficar em casa. É uma ótima desculpa para não ter de encarar a realidade. Eu não quero ser ingrata e estragar a felicidade do meu pai, mas também, eu sei que não estou feliz. Não por meu pai ter casado, mas simplesmente por eu não conseguir ficar feliz.
Sem contar que me apaixonei por Witsel, me apeguei a sua constância em minha vida. De certa forma até da forma exagerada de como ele demonstra sua preocupação, não em nenhum momento foi recíproco. Eu sei que ela sabe o que eu sinto por ele, e ele finge não ver, eu deixo que ele se aproveite disso.
Só que eu não posso aceitar migalhas de afeto para sempre. Se ao menos ele soubesse o impacto que suas palavras têm quando ele diz que sou sua garota, eu juro que ele nunca mais diria da boca para fora. Porquê me fazer sentir única enquanto não sou? Porque demostrar tanta preocupação enquanto não sente?
Eu até tentei, fui rejeitada indiretamente umas três vezes, e sei lá. Não dá mas, eu vivi a vida toda sendo criada por meu pai, sei qual é a vida de um homem solteiro e carente de afeto. E é por ter visto meu pai vivendo assim que eu nunca quis algo assim para mim, quero alguém que me ame e que esteja sempre para mim. Não um turista, que umas vezes está e outras não está. Eu acho que é um vício dos Rocha ferir os Pines.
É por esses motivos que me sinto sem vida, mal participo das aulas, apenas assisto, faço os testes e vou me embora, sem fazer questão de me enquadrar em qualquer grupo afetuoso.
Hoje fizemos o nosso último exame do primeiro semestre, o exame teve a duração de duas horas e ainda assim na minha opinião foi pouco tempo. Infelizmente o ônibus que peguei está lotado, coloquei meus fones e dei play as músicas de Shawn Mendes. Entrei no meu WhatsApp e nenhuma mensagem além das mensagens do grupo da faculdade.
Entrei no Facebook e fui vendo publicações e quando me fartei bloqueie o ecrã e fechei os olhos, já que a universidade fica a uma hora da minha nova residência.
Nem parece que são quatro da tarde, as ruas estão escuras e frias. Eu amo o inverno quando não tenho de sair de casa.
Eles saíram? Penso ao ver as luzes da casa desligada. Enfim nada fora do comum até então.
Limpo minhas sapatilhas no tapete preto que está na entrada, enquanto tiro as minhas chaves reservas e destranco a porta.
— Surpresa. — mal deu tempo de fechar a porta, as luzes foram acesas. Ford e Sheid carregavam Íris a minha frente, atrás dele estavam os Rocha e os meus amigos próximos, e alguns primos meus da família do meu pai.
A sala de estar é bem grande, deve ser por isso que cabem todos. Meus olhos passaram por Witsel que estava sorrindo para mim, e Linêsia que gritava parabéns como se sua vida dependesse disso.
— Feliz aniversário Mahatma!— gritaram todos.
E nem conseguia sorrir, estava surpresa, mas não conseguia sorrir, abracei meus pais, e meus avós e os pais de Witsel agradecendo pela Surpresa. Abracei também a Linêsia e ao Mário, quando chegou a vez de Witsel fiquei contraída, ele arqueou as sombras.
— Não merece teu abraço?— invés de o responder o abracei — ao menos sorria Mahatma, está assustado os convidados.
— Eu não gosto deste dia.
— Finja, ao menos hoje.
Meu pai sabe muito bem que não sou fã do meu aniversário, não sei o que deu nele para juntar tanta gente numa data que eu mal gosto. Se ao menos fosse um simples jantar, eu não iria reclamar, mas uma festa. Com mais de vinte convidados.
Depois do corte de bolo e entrega de presentes, servimos a refeição. Até então estava tudo correndo bem, a presença dos meus amigos mudava muito no meu humor. Fizemos fotos e vídeos, estava se tornando um dia inesquecível, afinal hoje faço dezoito.
Portanto por volta das oito da noite, a campainha tocou e um dos convidados foi abrir, eu não consegui ver quem era, por outro lado meu pai se levantou e foi receber o casal que estava acompanhado por uma criança. De por aí doze anos.
Meus amigos estão falado de sua vida académica e fazendo muito barulho.
— Mahatma você não tem medo de pegar sangue e órgãos?— Bartolomeu perguntou com nojo — Eu pensei que você fosse para academia militar não a medicina!
— Eu tentei, meu pai não quis!
— Mahatma na academia militar é uma péssima ideia, ela viraria a justiceira. — Linêsia.
— Boa amiga você, te amo.— ironizo.
Witsel só riu, não comentou nada , e a dado momento mexeu em seu celular, estava bastante entretido.
— Mahatma, preciso falar consigo!— meu pai disse, então me levantei e o segui até ao seu escritório, onde encontrei o mesmo casal e a criança. Olhei atentamente para mulher, e vi que já havia visto o seu rosto em algum retrato, eu sabia quem era ela, só não sabia o que ela queria depois de tantos anos. — Eu não sei se você se recorda, mas essa é a sua mãe Marisa, aquém você sempre quis conhecer. Eu irei deixar vocês a vontade.
Meu pai, junto do homem e a criação que acompanhavam Marisa saíram e nos deixaram a sós.
— O que você quer?— cruzei os braços a encarando, enquanto o meu corpo tremia.
— Mahatma, eu... Peço desculpas né...— Marisa é alta, seus cabelos negros são estupidamente longos, tem olhos escuros tal como os meus. Somos parecidas, não tem como negar.
— Desculpa pelo que? Por estragar minha festa e aparecer sem avisar ou por ter me abandonado? Por favor explique-se.
— Certo. Não era para as coisas serem assim, estás no seu direito de ficar revoltada, mas você precisa entender que foi preciso.
— O QUE VOCÊ QUER QUE EU ENTENDA? VOCÊ SABE COMO EU ME SENTI? COMO COMO EU ME SINTO? NÃO ME VENHA COM SEU DISCURSO DE MÃE ARREPENDIDA PORQUE NÃO VAI MUDAR NADA.
— MAHATMA NÃO LEVANTE O TOM COMIGO, EU SOU SUA MÃE. EXIJO RESPEITO.
Gargalho sem humor.
— AGORA VOCÊ É MINHA MÃE MARISA? ONDE VOCÊ ESTAVA QUANDO COMECEI A IR A ESCOLA, QUANDO FIQUEI DOENTE, NO DIA DAS MÃES, NA MINHA PRIMEIRA MENSTRUAÇÃO ONDE VOCÊ ESTAVA? VOCÊ NÃO SABE O QUÃO EU TE ODEIO POR TUDO QUE ME FEZ PASSAR. VOCÊ NÃO NEM SEQUER IMAGINA.
Lágrimas vertem dos meus olhos, então ela ajusta a postura.
— Certo, tem razão. Mas olha, você não é a única criança que foi abandonada. Devia saber disso e parar de pensar que o mundo gira ao redor do seu sofrimento. Devia ser mas madura, se comportar como uma mulher que acaba de atingir a maioridade, não uma criança. Qual a necessidade dessa toda gritaria? Quer que todo mundo ouça seus problemas? Quer ser o centro das atenções? Eu sou a vilã eu sei e daí? Vim me redimir, dê-me uma chance ou não. Não precisa de tudo isso.
Eu mal consigo limpar as minhas lágrimas, nesse momento quero muito bater nela, de todo o meu coração.
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O Que Me Tornei
RomanceO óbvio é a verdade mais difícil de se ver. Mahatma foi abandonada pela sua mãe quando ainda era pequena. Desde então sendo cuidada e protegida pelo seu pai. O porquê de sua mãe ter a abandonado e a dor da rejeição é algo que sempre lhe perseguiu. M...
