AMY
São 5h da manhã e está uma correria em casa!
Hoje é uma data memorável para todos nós.
É véspera de Natal!
É o dia da comemoração no orfanato e, apesar de termos madrugado, para dar tempo resolver tudo e chegar cedo (já que ficamos num local tão remoto), estamos muito animados.
Estamos absolutamente felizes!
Na verdade, a agitação começou há dias, com os preparativos.
Renovamos os brinquedos do parquinho, acrescentando alguns e decorando com temática natalina, e fizemos uma pequena reforma na casa, só o suficiente pra deixar o ambiente mais claro e arejado.
Jason providenciou um pinheiro enorme para as crianças decorarem antes.
A diretora, Amber Parker, nos enviou fotos.
A árvore está linda! E logo mais a cercaremos com os presentes que vamos levar!
Por falar no homem da minha vida, ele queria se vestir de Papai Noel! Todos nos espantamos com a ideia, pois já tínhamos contratado uma pessoa, que ele queria substituir.
Porém não posso considerar que seu motivo foi dos melhores.
Ele não quer deixar de ir, mas tem medo de assustar as crianças com as cicatrizes e não queria ir de máscara. Então pensou que vestir-se de bom velhinho seria o disfarce perfeito. Poxa :(
Discordamos e ele resolveu ir de máscara.
Não é desta vez que Jason vai ser Papai Noel, mas enfim...
Horas depois...
A decoração está perfeita, a mesa está farta, as crianças estão cheias de energia, o que nos empolga também! Suas risadas inocentes ecoam por todo o ambiente, nos contagiando com tanta alegria.
Este local é credenciado para atender a faixa etária de 8 a 18 anos.
Atualmente, são vinte e três crianças, a mais nova tem 8 e a mais velha, 17 anos.
Até ontem pela manhã, eram apenas vinte e duas, mas a diretora Parker nos avisou que no final da tarde, chegou mais um menininho. Felizmente, compramos presentes a mais, embora não saibamos ainda nada sobre ele.
Além de presentes de uso coletivo, compramos também um presente individual, conforme os pedidos nas cartinhas de Natal que elas escreveram.
Para nossa tristeza, há muitos desejos que não podemos realizar.
Embora todos tenham sido orientados a pedir algo palpável, e o tenham feito, vários também pediram pela saúde de familiares, outros pela paz no seio familiar, já que alguns vieram de lares afetados por violência.
na verdade, somente a minoria deles não tem quaisquer parentes conhecidos.
Quase todos tem alguém, mas por inúmeras questões, tiveram que ficar sob a tutela do Estado.
Juntamente com as cartas, as professoras nos enviaram informações sobre cada criança e jovem, incluindo seu histórico, condições de saúde, número de roupa e sapato e suas preferências. Pretendemos, aos poucos, conhecer a todos e atender com mais carinho às necessidades de cada um.
Do novo integrante da casa, por hora, só sabemos que se chama Luke e tem 11 anos.
***
Apesar das preocupações de Jason, ninguém, em absoluto, parecia se importar por ele estar de máscara e as crianças, em nenhum momento, prestaram atenção nas cicatrizes visíveis.
Depois de tantos anos recluso e se sentindo um monstro, ele não iria se tornar confiante e sociável tão rapidamente. Está evoluindo, mas ainda há um longo caminho pela frente.
O dia de hoje é mais um marco para ele. Para nós.
Já passou algum tempo depois de um almoço divertido e estamos brincando com as crianças no terreno dos fundos da casa.
Charles e Jason estão fazendo bonecos de neve com alguns meninos, muito compenetrados em modelar bolas perfeitamente redondas. Todd está puxando outros numa espécie de trenó que agregamos ao parquinho; Jane, Thomas e eu, nos revezamos com algumas meninas entre balanços, gangorras, escorregador e outros brinquedos, enquanto Emma está... céus! Ela está ensinando duas garotas mais velhas a... lutar!
Ai, Emma 😅
Os outros estão lá dentro arrumando algumas coisas.
JASON
- Oi, estão se divertindo?
É a Diretora Parker que se aproxima de Amy, sondando como estão as coisas. Há um tempo a observo circular.
Algo me incomoda e aproveito para ir até elas. Amy sorri e a responde:
- Estamos. As crianças e nós. E a senhora deveria relaxar um pouco e se divertir também.
- Apesar de toda ajuda que vocês estão dando, pela qual sou muito grata, ainda é meu trabalho e minha responsabilidade. Mas estou muito mais tranquila e feliz com a sua presença aqui.
- Entendemos.
Quero perguntar pelo menininho recém-chegado, Luke. Está me chateando o fato de estarem todos aqui se alegrando, e ele se excluindo, sozinho dentro da casa. Mesmo no almoço, ele não quis sair do quarto. Um dos funcionários levou o prato dele e mesmo assim ele mal comeu a metade.
Sei que estão todos lhe dando tempo e espaço para lidar com a mudança na sua vida, que o obrigou a vir pra cá, seja ela qual for. A Sra Parker ainda não nos contou.
Mas não consigo não pensar no quanto ele deve estar se sentindo infeliz e solitário.
Dada minha falta de jeito com as palavras, cochicho com Amy:
- O menino Luke vai mesmo ficar só lá dentro, enquanto todos estão felizes aqui?
Ela se dirige à diretora, que já não estava tão perto.
- E o Luke? Jason está preocupado por ele estar isolado e triste, enquanto todos os outros estão se divertindo.
A mulher alterna o olhar entre mim e Amy. Ela ergue e abaixa as sobrancelhas e faz mil caras e bocas por vários segundos. Posso imaginar as engrenagens da sua cabeça. Num dado momento, ela para e olha para o nada, falando baixo, para si mesma:
- Nãããoo sei... será... seria uma boa ideia... ?Mas quem sabe...
Ela volta a nos olhar. Primeiro para mim. Depois para Amy.
- Talvez... seu marido possa ir lá? Tentar trazer o Luke...? -pergunta, hesitante, olhando para mim novamente. Impressão minha ou o semblante dela tá estranho?
Amy e eu nos entreolhamos.
- Vou.
- Ele deve estar no quarto, o último do lado esquerdo do corredor.
Sigo para dentro da casa com uma sensação esquisita no peito. Será que vou assustar o menino? Por que a Sra Parker me pediu para ir, e não Amy ou outra pessoa? Por ser homem?
Com a cabeça fervilhando em conjecturas e o coração agoniado, chego à porta, que está fechada. Dou uma batidinha de leve, giro a maçaneta e entro.
Numa rápida verificação, vi um cabelinho atrás da última cama. O garoto estava sentado no chão, meio escondido entre o móvel e a parede.
- Luke? -chamo, baixo, enquanto caminho em sua direção. Penso que estou andando lentamente, mas em dois passos estou diante do menino. Ele ergue a cabeça e quando nossos olhares se cruzam, a visão que tenho me atinge como um raio. Congelo no lugar e não consigo expressar qualquer reação.
Não sei quanto tempo se passou, e apesar da névoa que inunda meu raciocínio e sentidos, ouço passos e vozes baixas se aproximando.
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Monstro
RomanceUm incêndio o deformou por fora e destruiu por dentro. Ele se vê como um monstro. A dor da perda e o medo da rejeição, o motivaram a tornar-se um hacker habilidoso e também um assassino, cujas vítimas são os algozes de inocentes. Ela não é mais um...
