A Verdadeira Guarda-Costas

107 12 6
                                        

O bipe do equipamento que monitorava os sinais vitais de Victoria parecia um doce acalanto para os ouvidos de José Ángel Arriaga, quando ele entrou no quarto de hospital instantes mais tarde. O ferimento da testa tinha sido suturado e estava coberto por um curativo e, embora a maior parte do sangue houvesse sido limpa, o cabelo dourado continuava com os vestígios do... Do que? De um acidente? De um atentado? Arriaga não sabia dizer.

Enquanto se aproximava do corpo inerte de Victoria deitada naquela cama de hospital seu coração se comprimiu ainda mais no peito. Ela estava tão pálida, tão indefesa. E todo aquele sangue... Aquela cena lhe trazia memórias terríveis. De Cristina após o acidente, morrendo em seus braços. E da própria Victoria após o atentado, da recuperação terrível, em que ele fora apenas coadjuvante, impotente. Simplesmente porque estivera ausente, como agora.

Arriaga sentou-se ao lado de Victoria, e segurou-lhe a mão delicadamente. A mão dela estava fria como uma pedra de gelo. Meu Deus, como ele se sentia culpado por mais uma vez não ter estado presente. Por mais uma vez sua ausência ter sido o vetor de um malefício na vida de uma pessoa que ele amava com tudo que havia dentro de si.

"Victoria, meu amor, me perdoa..." ele disse, roçando os lábios contra a pequenina mão dela. "Eu te amo tanto."

Victoria continuava imóvel, a respiração lenta, os bipes do equipamento contínuos, estáveis.

Arriaga sentia vontade de gritar.

Nada estava certo. Ele odiava tudo naquele momento. Odiava estar em Catemaco, naquele hospital, com um médico que não sabia dizer o que Victoria tinha, que não sabia dizer porque ela não recobrava a consciência. E detestava mais ainda não poder ver os olhos verdes de Victoria, não poder ouvir a voz dela, entender porque ela tinha partido tão repentinamente. Ele queria mais que tudo no mundo poder conversar com Victoria, por horas, dias, semanas. Entendê-la até não haver mais nada por entender e explicar que tudo ficaria bem, que todas as coisas que a afligiam poderiam ser resolvidas. Que os impedimentos que os separavam não significavam nada diante daquele amor que ambos sentiam.

Victoria suspirou em meio ao sono e Arriaga se viu por um momento relembrando as palavras que ele já sabia de cor, da carta que ela havia deixado antes de partir:

"É necessária uma distância entre nós para que eu possa ordenar minhas ideias. Espero que o tempo sirva para que as coisas se acomodem."

Arriaga sentiu como se o ar tivesse sumido de seus pulmões. Precisou soltar a mão de Victoria e se apoiar nos joelhos por um instante, tamanha a força daquela lembrança. Enquanto ele se sentia abandonado por ela, tentando entender os motivos que a fizeram partir, só agora tudo ficava claro: ele mesmo já a tinha abandonado. Arriaga nunca foi capaz de assumir, como um homem deve fazer e de forma definitiva, que Victoria era a mulher com quem ele queria ficar. Ele tinha tanto medo da reação de Liliana à relação dos dois - e mais tarde à rejeição que sofreram, que deixou Victoria numa situação impossível. Victoria era uma mulher nobre demais para entrar em conflito com a filha do homem que amava. Ela jamais se interporia numa relação de pai e filha. E Arriaga optara pela omissão. Por discussões vazias que nunca iam ao ponto nevrálgico da questão, sempre tateando ao redor do assunto sem realmente tomá-lo para si.

E isso não tinha nada que ver com o fato de que Nikki e Liliana não se suportarem - elas eram jovens e se resolveriam em algum momento, isso era o de menos. Mas o fato de Liliana não aceitar Victoria, isso sim era algo que deveria ser resolvido o quanto antes e era sobre isso que se tratava aquela carta - a viagem - e por deus! - todo o afastamento dos dois. Victoria, para não danificar ainda mais uma relação abalada, se afastou sem necessidade, quando ele mesmo era quem deveria ter tomado as rédeas da situação. Ele tinha sido um covarde e um tolo e agora o resultado estava claríssimo. Mais uma vez sua omissão, seus medos, machucavam outras pessoas.

Laberintos CerradosHistórias para pegar e não largar. Descubra agora