Quando Arriaga acordou, algumas horas mais tarde, seu coração deu um sobressalto ao perceber que estava sozinho na cama. Ele sentou-se rapidamente olhando para os lados à procura de Victoria enquanto sua cabeça criava todos os cenários possíveis – ela o tinha abandonado, se arrependido, fora em busca de Carlos ou voltara para Nelson, tudo havia sido um erro, ele era um homem rude que jamais seria adequado para uma Balvanera, era tarde demais para eles.
Mas então ele ouviu um ruído ritmado vindo da varanda, que se parecia muito com as teclas de um computador sendo digitadas. Arriaga sorriu, soltando o ar que sem perceber estava prendendo nos pulmões. E depois riu de si mesmo e de seus temores. Ele levantou, vestiu as boxers e as calças jeans e foi pé ante pé até a varanda.
Victoria, vestindo um robe leve de seda, estava sentada em uma das poltronas da grande varanda que recebia o sol daquele fim de tarde, com o computador apoiado numa pequena mesinha auxiliar. Olhava para a paisagem, o rio, as montanhas ao longe e digitava algumas palavras de vez em quando. Arriaga pensou que se fosse um artista, podia pinta-la como a obra de arte que ela era. Sem fazer barulho, ele se aproximou, a abraçando por trás. Victoria sorriu, fechando os olhos.
"Você acordou, meu anjo adormecido" ela disse, sorrindo.
"Faz muito tempo que você está aqui?" ele perguntou, a beijando no pescoço.
"Um pouquinho." ela respondeu, enquanto Arriaga dava a volta e se ajoelhava ao lado dela. "Você estava num sono tão profundo que não tive coragem de te acordar."
"Você sabe há quanto tempo que não durmo tão bem, senhora Victoria?" ele perguntou, dando ênfase ao "senhora Victoria", para diverti-la.
"Quanto tempo?"
"Uh, muito tempo!" ele disse fazendo carinhos no rosto de Victoria "Desde que conheci uma certa senhora em apuros."
Victoria riu, levantando da poltrona. Arriaga a puxou para si, a abraçando. Os dois trocaram um beijo apaixonado. Quando se separaram Arriaga começou a beija-la no pescoço.
"José Ángel?"
"Hum?" ele respondeu, no meio de sua exploração pelo pescoço de Victoria.
"Você está com fome?"
José Ángel se afastou de Victoria a olhando nos olhos.
"De você?" ele perguntou "Muita."
Victoria riu.
"Não!" ela disse e deu um tapinha no ombro dele "Estou falando de comida. Não almoçamos ainda e já são quase seis horas."
"Vendo por esse ângulo... Confesso eu estou morrendo de fome." Arriaga respondeu. "O que não exclui outras coisas." ele continuou e mordeu o lábio olhando para Victoria intensamente.
Victoria sentiu que o ar lhe faltava. A visão que era Arriaga apenas de calças jeans, o peito desnudo e bronzeado, o olhar profundo e negro pelo desejo, a deixavam de pernas bambas. Victoria sentia que era quase inacreditável existir alguém que pudesse olha-la daquela maneira, com aquele tipo de intensidade e profundidade. Quando Arriaga olhava para ela, era como se visse sua alma. Arriaga desceu delicadamente as mãos pela cintura de Victoria desatando lentamente as tiras do robe que ela usava.
"José Ángel" ela gemeu.
Quando José Ángel abriu o robe e se afastou de Victoria percebeu que ela não usava absolutamente nada por baixo. O olhar cheio de desejo e paixão que ele devolveu para Victoria foi algo que ela jamais esqueceria.
"Victoria" ele disse, quase sem conseguir respirar.
Victoria fechou o robe com as mãos e deu uma gargalhada. Olhou para Arriaga rindo e correu para o interior do quarto. Arriaga abriu a boca mas não conseguiu dizer nada, tamanha a surpresa. Ele sabia que Victoria era uma mulher incrível, mas a cada instante em que passavam juntos como um casal, era como se ele fosse descobrindo algo completamente novo sobre ela. Algo incrível que o deixava cada vez mais apaixonado. Meu Deus, a verdade era que ele não estava errado quando a viu dançar pelo ateliê, meses atrás, e pensara que era o mesmo que ver as paisagens de sua juventude – porque a realidade era que Victoria era uma força da natureza.
De repente, Arriaga ouviu um clique e o quarto foi inundado por música – a canção que era testemunha desse amor avassalador que eles sentiam. O sol começava a se pôr deixando o céu em tons de azul e rosa, e o perfume da bougainvillea que pendia da balaustrada se fazia mais presente no ar. Arriaga caminhou até a porta para entrar novamente no quarto e o que viu o fez paralisar. Victoria dançava de olhos fechados, os cabelos soltos brincavam pelo rosto dela, os braços se moviam ao redor do corpo no ritmo da música.
Arriaga sorriu diante daquela cena, daquela mulher, a qual ele pertencia – completamente, irremediavelmente – que era dona de tudo que ele era. E ele se sentia tão leve por estar tão entregue a ela, a essa mulher loirinha, com esses pezinhos descalços, que cabia toda entre os braços dele, com esses olhos verdes enormes que continham estrelas cadentes. Como? Como ela – e apenas ela – podia ser tudo isso, podia ser esse mundo inteiro, podia - tão pequena - abriga-lo inteiro dentro de si?
Ele andou lentamente até Victoria e se encaixou entre os braços dela com delicadeza. Victoria abriu os olhos sorrindo e encostou a cabeça no ombro dele, se deixando levar pela música. Arriaga a beijou na testa e ela suspirou profundamente.
"Sabe, José Ángel, é um alívio não ter mais que dançar sozinha." ela disse, depois de algum tempo.
Arriaga, de olhos fechados, entendeu que ela não falava apenas sobre dançar. Ele a apertou mais contra si, querendo borrar dos pensamentos dela qualquer lembrança ruim.
"Daqui pra frente, você sempre vai ter um parceiro de dança, se quiser."
Victoria se afastou dele para olha-lo nos olhos.
"Sempre?" ela perguntou, os olhos verdes brilhando em lágrimas.
Arriaga sentiu seu coração apertar no peito ao ver a fragilidade refletida nos olhos de Victoria de forma tão explícita e transparente.
"Sempre." respondeu Arriaga.
Victoria sorriu, levando as mãos ao pescoço de Arriaga e o puxando para um beijo apaixonado. Uma promessa que trazia um alívio ao coração de Victoria. Uma promessa que trazia uma esperança ao coração de José Ángel.
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Laberintos Cerrados
FanfictionFilho de um antropólogo e de uma índia nativa de Catemaco, Vera Cruz, José Ángel Arriaga sempre esteve familiarizado com os rituais xamânicos de sua terra natal. Em meio à sua culpa e remorso, ele decide voltar para sua cidade em busca de uma respo...
