Voyeur

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Arriaga fechou a porta atrás de si e, no mesmo instante, o cheiro da grama recém-cortada invadiu seus sentidos. A noite caía devagar sobre o jardim da mansão Balvanera, e as cores do crepúsculo tingiam o céu com tons suaves, quase irreais, criando uma atmosfera onírica enquanto Arriaga revirava os bolsos à procura das chaves do novo apartamento. Ele andava lentamente pelo caminho de pedrinhas que levava até os portões da mansão, sentindo o peso de cada passo.

Arriaga odiava aquela situação. Odiava ter que voltar todos os dias para um apartamento vazio - o apartamento que tinha alugado duas semanas atrás, depois daquela briga terrível. Mas, ao menos, o lugar era perto o suficiente para que ele pudesse ver os bebês todos os dias.

Ele detestava tanto o lugar que não tinha nem se preocupado em mobiliá-lo. Uma cama e um frigobar eram o suficientes - e afinal, ele não precisava de muito. Arriaga, nesse momento, não queria se planejar a longo prazo e muito menos criar raízes. Vivia dividindo seu tempo entre a empresa com Guzmán e Salsero, e as visitas frequentes à mansão.

Ele se deteve por um instante e, instintivamente, olhou para trás. Através das grandes janelas do quarto principal, viu Victoria. A luz acesa criava uma aura de conforto, uma intimidade acolhedora da qual ele sentia uma saudade que lhe arrebentava o peito. Victoria segurava os bebês nos braços, aconchegados em seu peito, embalando-os com suavidade.

Arriaga sentiu vontade de gritar.

Tudo estava errado. Completamente errado. E ao ver aquela cena, ele se sentiu o homem mais tolo que já pisou na face da Terra. De novo, seus medos haviam vencido. De novo, ele magoara a pessoa que mais amava no mundo.

Porque era isso, não era? O medo de perder Victoria. A ânsia de proteger um amor tão imenso o tinha feito tomar todas as decisões erradas. E, sim, uma boa dose de machismo arraigado — sutil, insidioso — que havia sido perpetuado por gerações e que ele havia absorvido quase sem perceber. Foi preciso ficar sozinho para enxergar a si mesmo como o homem antiquado que era.

Ao querer manter Victoria somente para si, não percebeu que estava, na verdade, repetindo uma ideologia milenar: homens que esperavam tudo de suas mulheres, como seu pai tinha sido e como seu avô antes dele e que isso era algo natural e esperado dentro de uma família nuclear.

Temia que o dinheiro de Victoria os afastasse, que arruinasse tudo — como ruíram tantas histórias, como ruíra a própria família Balvanera, como ele e Cristina um dia ruíram. Mas não viu que esse medo o fazia colocá-la numa prisão invisível. Queria protegê-la, mas a confinava. Queria amá-la, mas a limitava. E Victoria, como sempre, tinha razão: em nenhum momento ele havia pensado nas consequências daquela relação.

Porque Victoria era uma mulher livre, com uma luz própria. Ela se movia por suas paixões - pela arte, pela música, pela literatura. E foi exatamente por isso que ele tinha se apaixonado por ela. Porque ela era uma força da natureza, encantadora e indomável, que o inspirava a ser um homem melhor, a se superar, a caminhar ao lado dela onde quer que fosse, em busca de um futuro cheio de descobertas e aventuras.

Então por que, mais uma vez, ele se deixou dominar pelo medo?

O medo de não ser suficiente, de não dar conta, de que tudo desmoronasse. Um medo que o fazia desejar uma vida regrada e simples, como a de seus pais. Mas que jamais seria autêntica. Jamais seria divertida. Jamais seria verdadeiramente sua.

E agora, esse medo o havia deixado do lado de fora. Nada restava senão observar, à distância, a família que construíram. Como um ser estrangeiro. Como um voyeur espreitando pelas vidraças, tentando enxergar o que mais deseja — mas que já não pode tocar.

E de repente Arriaga percebeu que o que deixava de fato, era a sua casa para trás. A casa que por tanto tempo sentia que não era sua, uma casa que por tantos anos parecia alheia, mas que agora era tão sua como jamais fora. A mansão Balvanera agora lhe doía no peito como um lar. E não porque sentia que pertencia a ele por direito, mas porque a casa abrigava, entre suas quatro paredes, as pessoas que ele mais amava no mundo.

Victoria continuava com os bebês nos braços, os embalando suavemente com uma ternura que parecia sagrada. As luzes da casa já estavam todas acesas, e tudo gritava como um lar tão fortemente que Arriaga precisou juntar toda a coragem do mundo para cruzar o portão da propriedade e deixar seus amados para trás.

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