ISABEL NÃO ERA A GAROTA DE DEZ ANOS MAIS DIFÍCIL DE
CUIDAR.
Geralmente, ela ficava jogando videogames e gritando com a TV.
Tudo que tive que fazer foi lhe dar o jantar. Em seguida, às nove e
meia, quase precisei arrastá-la escada acima até que ela gritou: —
Está bem, está bem! Vou dormir.
Suspirei, me acomodando ao silêncio quando ela bateu a porta do
quarto.
Larguei o corpo diante da TV e finalmente soltei o controle remoto
quando surgiu um filme sanguinolento com romanos, gladiadores ou
coisa do tipo.
Quando estava quase dormindo, meu celular tocou. Me levantei com
um salto, quase caindo do sofá.
— Alô? — balbuciei para o celular, sem olhar para o identificador de
chamadas. Falava como uma louca, mas não estava me importando
muito. A pessoa que estava do outro lado, quem quer que fosse, teria
que lidar com aquilo.
— Ah... Emma?
— Sim? — esbravejei, irritada.
— Aqui... ah, aqui é o Georgie. Escute... não desligue. Só queria pedir
desculpas pelo que aconteceu hoje de manhã. Fiz aquilo sem pensar,
eu acho...
o que eu disse. Por isso... desculpe.
Pisquei os olhos algumas vezes, tentando clarear as ideias. Georgie?
Ligando para pedir desculpas? Eu não conseguia acreditar. Embora
talvez isso estivesse acontecendo porque ele parecia estar tentando
não rir.
— Ah... Emma? Você ainda está aí?
— E-estou — gaguejei, rapidamente. — Desculpe, estou só... só
usando o fogão.
Mas que diabos? Quem é que fica distraída durante uma ligação
porque está usando o fogão? Às dez da noite?
— Você está ligando bem tarde, sabia? — emendei, apressadamente.
— Talvez tarde demais para pedir desculpas.
— Eu sei, mas só queria dizer que estou arrependido.
— Bem, obrigada — respondi, seca. — Tenho que ir agora, Georgie.
Então eu...
— Espere um segundo.
— Não quero ouvir nada do que você tem a dizer, seja o que for.
— Você não quer sair para jantar comigo, então? — Eu estava quase
conseguindo imaginar a expressão arrogante no rosto de Georgie, a
julgar pelo tom atrevido da sua voz. Aquilo me fez ranger os dentes.
— Me da uma chance de realmente poder me desculpar?
— Não. Tchau.
Desliguei e joguei o celular no sofá antes que ele pudesse dizer mais
uma sílaba. Que idiota.
E Aliyah disse que eu era gentil demais... Ha!
Bufei discretamente com aquela ideia, sentindo-me bastante satisfeita
por ter sido tão direta com Georgie — embora não fosse nisso que eu pensava enquanto subia as escadas.
Havia somente uma coisa em minha cabeça. Bem previsível, diga-se
de passagem. Era Jenna.
Por algum motivo, a única coisa na qual eu conseguia pensar era a
manhã de domingo quando caímos da cama. A expressão em seus
olhos — da qual eu me lembrava perfeitamente, mas que não
conseguia compreender, com aqueles olhos brilhantes cobertos pelas
sombras e fixados nos meus.
Porque ninguém olha assim para alguém que considera como irmã
mais nova, não é? É claro que eu estava sendo ridícula; eram
somente meus pensamentos sonolentos viajando pela terra dos
sonhos. Mas aquilo me fez pensar que talvez houvesse uma razão
diferente para ela ter se envolvido naquela briga de manhã.
Ralhei comigo mesma, já sentindo os olhos se fecharem.
— Você é uma idiota, Emma — resmunguei. — Uma bobalhona
completa...
A ESCOLA NO DIA SEGUINTE NÃO FOI TÃO RUIM. OUVI UNS
DOIS assobios e comentários provocadores mais altos, mas não dei
atenção. E só ouvi aquilo quando Jenna não estava por perto.
Aliyah estava resmungando sobre aquilo e eu disse: — Bem, acho que
a culpa disso é minha. Afinal, realmente tentei tirar a roupa para ir
nadar pelada...
Ela me encarou com uma expressão irritada, e parei de falar. — O
que foi que eu disse ontem? Gentil demais.
— E o que eu fiz na festa? Foi gentil demais? — exigi saber.
— Você não é do tipo que sai por aí se exibindo, não é mesmo?
Entende o que é decência. Um deslize com a bebida e aqueles caras
começam praticamente a tirar sua roupa com os olhos.
Suspirei. — Pare com isso. Não sou tão atraente assim.
— Já se olhou no espelho ultimamente, Senhorita Sutiã Tamanho
Trinta e Seis?
— Aliyah! — gritei, dando-lhe um tapa no braço. Senti minhas
bochechas ficando vermelhas. — Não diga isso tão alto!
Ela riu de mim, passando o braço ao redor dos meus ombros. — Não
consigo acreditar que esta é a mesma garota que queria nadar pelada
e quase arrancou a roupa na frente de um bando de garotos...
— Cale a boca.
— Desculpe.
— Temos uma reunião para falar do festival na hora do almoço — o
lembrei quando o sinal tocou. Embora eu fosse uma garota da
química, Aliyah preferia biologia. Era a única matéria que não
cursávamos juntas.
— Sim, eu sei.
— Até lá.
— Tchau, Emma.
Fui até a cadeira onde habitualmente me sento no laboratório de
química, e foi então que ouvi: — Ei, Emma! Venha sentar comigo.
Olhei por cima do ombro e vi Doohan puxando a cadeira ao lado dele.
— Esse aí vai morrer — ouvi Farmer murmurar atrás de mim.
— Sem falar no que Jenna vai fazer — concordou Cath, e os dois
sorriram para mim antes de se sentar. Encarei os dois com uma
expressão confusa, pensando: Garotos...
— Ah... Claro, tudo bem — disse a Doohan, e fui sentar ao seu lado. Eu
não o conhecia muito bem, mas parecia ser um rapaz legal. Tinha o
cabelo tingido de preto e um piercing na língua, e também era
pianista clássico; já o havia visto tocar em um concerto na escola
certa vez.
— Fiquei sabendo da briga de ontem — disse ele, casualmente,
desenhando linhas serpenteantes no canto do livro de química. —
Não consigo acreditar que disseram aquelas coisas para você.
— Oh, bem... ah... — ri, nervosamente, sem saber o que dizer.
Depois de alguns momentos, ele disse: — É verdade que você e Aliyah
vão montar uma barraca do beijo? Para o festival da primavera?
Confirmei com um sorriso, grata pela mudança de assunto. — Sim!
Legal, não é?
— Sim. — Ele sorriu de volta. — Você vai trabalhar na barraca,
então? — Ele ergueu uma sobrancelha, seus olhos castanho esverdeados se iluminaram com satisfação, e um sorriso insinuante
se formou em seu rosto, embora eu percebesse que ele não estava
falando totalmente sério, pelo toque de riso em sua voz.
— Não — eu ri. — Não vou.
— Que pena. Esperava não ter que passar vergonha aqui.
— Oh?
— Você não gostaria de... você sabe... ah... ir... — ele limpou a
garganta. — Assistir a um filme ou coisa do tipo... comigo... algum
dia?
Senti vontade de rir apenas pelo seu nervosismo.
Mas consegui me conter.
Em vez disso, lhe dei um sorriso maroto e disse: — Você não tem medo de que Jenna acabe quebrando o seu braço ou algo parecido?
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The Kissing Booth
FanfictionEmma Myers vive um dilema romântico: Ela está apaixonada pela irmã mais velha da sua melhor amiga, mas não pode ficar com ela, pelo menos é o que ela acha. *Essa história é uma adaptação do livro A Barraca do Beijo* (Jenna é uma personagem intersexu...
