Gabriel
Pisei o último degrau do lance de escadas com força, para celebrar a vitória contra a gravidade cansativa de baixo e o silêncio mórbido aqui em cima. Se não tivesse cruzado com a mamãe e a montanha de documentos dela, diria que não tem uma alma viva em nenhum cômodo no andar de cima. Acho até que nem assim, porque as olheiras que ela tinha na cara não eram brincadeira, coisa de semanas de sono pobre.
Ouvi passos abafados que fizeram meu pescoço quase estalar de tão rápido que virei. Que nem uma sombra, meu pai estava lá, estático, como se esperasse um movimento meu. Até que enjoou de esperar, e começou a andar na direção do quarto dele.
— Boa no... — Interrompi a saudação com um suspiro — Deixa pra lá. — Sussurrei pra mim mesmo cansado. De muita coisa.
Dei de ombros e virei para a porta do meu quarto. A porta mal abria com as bagagens que seguiriam comigo. Nessa pequena brecha, uma coluna de ar frio aproveitou sair, provocando um arrepio que fez meu corpo tremer completamente. Fechei lentamente a porta e olhei para o lado, para a janela de onde o luar entrava esbatido. Iluminando a porta no fim do corredor.
Me aproximei da porta que nem uma mariposa. Quando abri, o cheiro a baunilha e flores forçou a sua entrada nas minhas narinas. O quarto já não estava mais escuro; a luz do dia entrava pela janela enorme e mantinha cada canto nítido, exatamente como estava na minha memória. Enquanto eu estava correndo de um canto para o outro em volta da cama no meio do quarto, Martina estava com as mãos na cintura, arfando.
— Não, vó, você tem que contar até um, do dez até um! — Gritei irritado, puxando os fios de cabelo para a cara.
— E eu contei! — Respondeu Martina, com a voz serena de sempre.
— Mas começou do um, como que isso é contar? Nunca brincou de esconde-esconde? — Insisti. Numa encarnação com outra cor, eu tinha ficado vermelho.
— Já passou tanto tempo que agora é a mesma coisa que nunca.
— Mesmo assim, você não pode deixar a sua memória ficar tão ruim assim! Por isso que tem que ficar brincando mais comigo em vez de ir lutar com os vilões. Aí você fica cansada e não pode brincar! — Meu tom inocente provocou um sorriso leve nos meus lábios.
— Poxa, mas se eu não for, como que a gente vence a batalha, Gabi?
— E a PM? — Ouvia as gargalhadas dela como se estivessem acontecendo agora. Abriu os seus braços e me envolveu.
— Espertinho você, hein? Mas não, não pode ser mais ninguém lutando por mim. Só posso ser eu. — A aflição que emanava do corpo daquele garotinho era quase palpável até hoje.
— Posso nem ajudar? Você nunca me deixa ir com você, eu tô ficando forte. — Reclamei de novo com o tom emburrado.
— Você já é a pessoa que mais me ajuda. Eu só tenho a paciência de lutar por sua causa. — A resposta dela não me convenceu assim tanto. Continuei com o semblante tristinho.
— Mas e a mamãe? Ela que conduz o carro pra levar a gente no hospital. — Olhou para o teto por um instante antes de voltar seus olhos dourados para mim.
— É, sua mãe também me ajuda pra caramba.
— E o papai?
— Seu pai? — Olhou dos lados antes de responder — Seu pai é um chatão. — Sussurrou, me fazendo rir do jeito bobo dela falar — É um chatão, mas ele me ajuda também.
— E a tia Li? — Seu sorriso afrouxou um pouco antes de responder.
— A tia Li... é, a gente não fala muito igual eu falo com a sua mãe, mas ela e a filhinha dela também me ajudaram muito.
— E a Aurora?
— Sua namoradinha também me ajuda. Me ajuda muito!
— Vó! — Quase gritei de tão sem jeito que fiquei. Ela riu do seu jeito suave de novo — Ela não é minha namoradinha!
— Tô brincando, Gabi! É só um jeito de falar que você gosta dela. Não gosta? Dela e do outro menino que vem sempre com ela, que eu esqueci o nome.
— O Cardozo? Ahh, sim, também gosto de brincar com ele. — A ironia da resposta e da nossa relação hoje... é até engraçado. O roncar da minha barriguinha fez Martina arregalar os olhos e olhar para o relógio de bolso que tinha na escrivaninha.
— Pensei que seus pais já tivessem dado comida pra você a essa hora. — Abanei a cabeça, com um sorriso alegre por saber que ela provavelmente ia fazer um dos milkshakes dela — Meu Deus do céu. A mamãe tá aonde? — Abanei a cabeça e dei de ombros — E o seu Chris?
— Ele tá no escritório, e não gosta muito quando a gente interrompe o trabalho. — Fechou os olhos.
— Quando que Olívia e o Chris atinam? — Suspirou baixinho.
— Pode fazer um milkshake pra mim? — Pedi já fazendo o beicinho.
— Preciso ensinar você a fazer. Vai que eu nunca mais posso fazer pra você.
— Por quê?! Eu só gosto quando você faz! — Protestei.
— É porque você precisa aprender a viver sem... — Pigarreou antes de continuar — ... a vovó não vai ficar aqui pra sempre.
— Eu também vou com a vó. — A leveza com que disse isso contrastava perfeitamente com o peso das palavras que Martina ouviu, quase marejando os seus olhos.
— Se eu for embora, vou sozinha. E você precisa ficar.
— Quero não. — Insisti — Não quero ficar sem a vó. — Me abraçou com força e beijou a testa.
— Meu filho... você lembra da história do pássaro na gaiola que eu contei pra você na semana passada?
— Mais ou menos. Lembro que você contou a do rouxinol, contou a da andorinha que ajudou na estátua, contou a do rouxinol de novo, e...
— Não, a da semana passada. — Olhei para ela sem fazer ideia do que ela estava contando — Do pássaro que era feliz quando tava com os amigos e depois ficou na gaiola sendo alimentado e cuidado, mas sem poder brincar do jeito que queria nem comer o que queria. Quando o caçador abriu e deixou ele fugir...
— Sim! Eu lembro, ele voltou a fechar a gaiola!
— Exatamente. Qual foi a lição que a gente tirou disso?
— Ele era meio preguiçoso, escolheu ficar triste com comida do que fazer o que ele queria, pegar sozinho a comida das árvores.
— Ele escolheu a prisão porque ele não queria pagar o preço da liberdade. E você, passarinho, precisa saber ver quando você não tá escolhendo ficar acorrentado porque tem medo da liberdade. Mamãe fez você ter um dos meus olhos, use eles.
— Como assim, vó? Não tô entendendo. — Um sorriso leve escapou dos lábios dela quando me ouviu reclamar — A gente pode ir tomar o milkshake então ou não? — Em pouquíssimos passos, tinha levantado e chegado até à porta.
— Quando for hora você vai entender. — Suspirou uma última vez antes de abrir a porta para que eu passasse e depois fechou, sem nem olhar pra trás.
Antes de eu próprio também fechar a porta, olhei uma última vez para a escrivaninha dela, para a foto de família emoldurada que tinha lá para olhar para a minha avó.
— Primeira vez saindo de casa pra valer, já viu? — Sussurrei — Tudo isso... tem que ficar aqui. — Acariciei um pouco a moldura — Você me entende. Não é? — Murmurei com a voz já meio embargada — É. Você é a única que pode me entender.
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
