Luana
Parecia que a distância do estacionamento até o R não era tão grande como eu me lembrava, ou tinha ficado menor com o turbilhão dentro de mim.
Reaprender nunca é fácil, principalmente quando é sobre vulnerabilidade. Entristece tudo em mim saber que eu não consigo mostrar transparência, e isso magoa as pessoas à minha volta. Gabriel sabe o que sinto por ele, só não consigo dizer com a mesma facilidade, por mais difícil que ele diga que seja.
Não é porque não falei que não é verdade...
Desde a primeira vez que ele disse aquilo que eu travei, já me culpava por estar causando uma dor que nem era suposto. Eu sei melhor que ninguém que dói. Só que... tem que respeitar o tempo dos outros. Eu não posso dizer algo que eu sinto que talvez até seja amor real, mas não assentou por tempo suficiente para ter... aquela base, para poder ser...
Olha aí, me enrolando nos meus próprios pensamentos.
Empilhava cada vez mais pensamentos que despertavam sentimentos menos positivos até ouvir um grito meio assustador, do nada. Alguma coisa me angustiou nesse grito meio rouco, como costuma ser nessa faculdade com as pessoas brincando de todos os jeitos possíveis. Passei o cartão dele pelo sensor e a porta abriu.
O braço do Dante surgiu atrás da porta para a minha frente, impedindo de continuar. Viu a mala e o cartão do Gabriel, e inclinou a cabeça para o lado, mas não fez nenhuma pergunta, só deixou que eu passasse. Fui para a porta da esquerda e nem entrei como deve ser. Atirei as coisas dele para cima da cama, sem reparar que estava ocupada.
— Oh, que merda é essa, Gabi? Tá chateadinho, é? — Perguntou a Viviane, colega de quarto dele.
— Nossa! Mil desculpas, só atirei, pensei que não tivesse ninguém. — Fui correndo para retirar a mala de cima dela.
— Ahh... Luana. — Disse devagar, como se estivesse acabando de acordar.
— Por que tá na cama dele? Pensei que... né, sendo dele, estivesse vazia.
— Deixei cair um pouco de chá na minha. Enquanto não seca, fico aqui. Ele botou você para carregar as coisas dele até aqui? Onde ele tá? — Ri um pouco.
— Ficou no restaurante para falar com o chefe dele ou algo assim. Não sei. — Meu celular começou a vibrar. Saquei e era ele ligando. Silenciei, firme em convencer a mim mesma que o motivo maior é que eu não queria interromper a conversa com Viviane. Ela ficou me encarando durante alguns instantes com uma expressão curiosa, mas não fez nada. Se ajeitou na cama e bateu perto da cama.
— Tá tudo bem? — Sentei na cama e suspirei fundo antes de responder.
— Sim, obrigada.
— Mesmo? — O celular da Viviane também chamou. Ela resmungou alguma coisa com a cabeça para cima e viu quem estava chamando. Atendeu e piscou o olho pra mim — Cara, não sei o que tá fazendo, a Luana não parece muito contente não. — Seu semblante mudou de brincalhão para sério em segundos — Mas encontrou na rua? Me dê uma coordenada para eu ir ter com o senhor...
Gabriel perdeu o celular? O Gabriel?
Impossível. Ele nunca perderia o celular.
O que está acontecendo?
Pensar no que pode ter acontecido só me consumia por dentro. Viviane agora esbugalhou os olhos e se ejetou da cama como um míssil, me provocando um calafrio. Botou o celular entre o ombro e a orelha e começou a correr pelo quarto, procurando alguma coisa.
— Onde?! Puta merda, obrigada! Procure um Christian, C-H-R-I-S-T-I-A-N, ou Chris, C-H-R-I-S, e tente ligar, por favor. Chego em dois minutos! — Desligou gritando. Virou sua cara aterrorizada para mim, fazendo com que instintivamente fechasse o olho direito, esperando alguma coisa. Acalmou a respiração, vacilando na expressão — Então, Lu... por favor, ouça até ao fim. O Gabriel... ele foi encontrado inconsciente com sangue na camisa. O senhor chamou a ambulância porque acha... ele acha que foi esfaqueado. — Tive nesse instante uma quebra de tensão, o meu estômago se embrulhou todo.
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Olho de Âmbar
RomantikO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
