XLII - Feridas

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Luana

Soltei um longo suspiro quando fechei a porta do quarto. Sinto uma dor estranha na coluna, provavelmente não dormi direito ou bebi muita água e fiquei com isso. Sei que se continuar na cama ela passa, mas eu posso voltar depois do treino do Gabriel. Vou continuar fazendo esse esforço extra porque eu não lembro de ver o Gabriel tão animado com alguma coisa.

Parece que eu estou conhecendo uma pessoa nova. Desde que ele recebeu aquela chamada daquele amigo dele lá da turma de cálculo, ele parece... levitar. Ele ri que nem um idiota às vezes, conversa sobre coisas nada a ver comigo, usa menos vezes as lentes... eu conhecia esse lado descontraído dele. É como se ele estivesse reprimindo isso, e só agora que está jogando bola esse lado está ganhando força.

Por isso fiquei brava quando ouvi ele com a conversa da avó dele. Eu não quero que ele volte a ficar que nem antes, eu queria que ele... que ele supere. Que ele consiga finalmente encontrar a paz que ele sempre falou.

Mas não será que fui muito dura ontem? Ele sempre andava procurando por uma resposta, e ele finalmente encontrou alguma coisa. Estava tremendo até, o toque dele parecia frio, distante... não sei. Vou ver ele, vou falar com ele, vou tentar entender ele. Depois a gente vê o resto.

Lá em baixo, Vitória estava dançando com uma música alegre, mas que estava sendo abafada por algum som de uma máquina qualquer do lado de fora. Ela parecia não se importar, me puxando para dançar com ela.

— Cheirosa... a senhorita vai encontrar algum cavalheiro? — Perguntou me guiando na dança.

— Mais cavaleiro, mas sim. — Recuou o rosto e parou de dançar, olhando para mim de lado.

— Pera, então... peraí.

— O que é que foi?

— É que chegou isso aqui para você. — Foi atrás da mesa dela e pegou um cartão tipo livrete do tamanho de uma carta, vermelho e branco, com adornos dourados.

— De quem? — Abanou a cabeça e deu de ombros. Recebi das mãos dela o cartão e descobri uma caligrafia linda, provavelmente impressa de tão perfeita que parecia.

"Um a seguir ao outro, ecoam de forma ribombante

Os batimentos de um órgão que não desistiu ainda

Túnicas juntam as mãos, túneis se formam num instante

Imperam cânticos inertes e silêncios altos como guindas

É um sopro, é um momento, é uma combustão, é uma faísca

Mas existiu, mesmo que como uma manifestação elementar

Não pode ser devolvido à área da génese de tudo, que é mista

Sabendo que há um propósito incandescente por alimentar

Pode a sílica enrijecer, desencantar as plantas lá crescendo

De tão quente, brilhante, potente, radiante, latente, gritante!...

Camadas tão finas não resistem o necessário, mesmo querendo

Fere, mas ao mesmo tempo sara, é a sua cura extenuante

O tempo restaura, mas a sua necessidade vai retrocedendo

Você não vai me ressuscitar, me mate pra seguir adiante"

Por quê... hã? Por que o Gabriel me escreveria um negócio desses?

— E não foi o Gabriel que deixou isso, certo?

— Veio um tal de Thomas procurar por você para entregar uma "carta pela química". — Virei lentamente o cartão e vi nas letrinhas pequenas entre os desenhos de ursos de pelúcia e corações um "Lu ster". Senti a bile subir bem pela minha garganta. Como que ele descobriu onde eu estou vivendo? — Quê que foi, Lu, que cara é essa?

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora