Camadas (interlúdio)

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8 meses antes...

O DJ era uma bosta. Tocava um monte de música aleatória. A pessoa até pode pensar que não há problema nenhum nisso. E realmente não tem... até chegar a próxima música. Ele teve coragem de transitar de um Seu Jorge para um MC Gui. Lembro de pensar que ou ele estava fazendo um favor ou pensou que ninguém ia notar na música quando tem álcool pra se beber.

— Aí ela disse pra mim: "Você sabe que eu já fui da sua idade, né? Você não vai com a sua 'melhor amiga' para uma festa dessas". — Falei mais perto do ouvido dela, gritando do mesmo jeito.

— Pô, a tia ainda anda nessa nóia? — Dei de ombros e ela riu com leveza. Estapeou a minha coxa e inclinou o corpo pra trás, perdendo o equilíbrio — Ups. — Segurei o braço dela, que só fez ela rir mais ainda.

— Hmm... tô vendo que vou ter que levar você.

— Cala a boca, Gabi. Eu tô perfeita. — Pousou o copo na mesa atrás da gente e fez o quatro com as pernas e as mãos juntas por cima da cabeça. As feições do rosto dela se desfaziam um pouco entre os feixes aleatórios de luz daquele salão — Você tá perfeito. E daqui a uns meses, a gente vai estar perfeito junto naquela faculdade. Eu, você, o Cardozo... — Meu rosto se encolheu, e eu não quis saber. Ela não ia notar. Em algum lugar do meu coração eu até gosto do Cardozo, ele é um cara bem bacana, mas daqueles caras bacanas com quem você não pode viver.

— Se fizer faculdade já tá muito bom. — Gritei. Ela voltou a sentar do meu lado com estrondo e encostou o ouvido à minha boca, me fazendo repetir a mesma coisa, mas mais alto.

— A gente resolve isso, não se preocupe. Vai ser tudo como quando a gente era criança.

— Eu já falei pra você, sinto que ele ultimamente não vai com a minha cara porque a gente é muito próximo. Ele tá gamado em você. — Afastou a cara da minha e ficou parada algum tempo.

— E isso é um problema por quê? Você fala que não gosta de mim e tá tudo certo. Tem até o álibi da garota da outra turma lá, a Luana, que ele viu você olhando que nem um bobo pra ela.

— E? Claro que ele não vai ligar pra isso se tudo que vê é a gente andando junto pra tudo que é lado, né?

— Queria entender... mas prefiro aproveitar a noite hoje. Vem comigo. — Levantou e me puxou com força para o meio da pista.

A gente chegou no meio do salão, batendo aleatoriamente nos colegas da gente, quando começaram a tocar as danças de salão, principalmente as músicas de estilo kizomba, daqueles bem lentinhos mesmo. Naquele instante, toda a decoração vermelha e branca se tornou um borrão. O álcool tinha deixado ela mais solta, o seu corpo estranhamente balançava de acordo com cada mudança da música, e eu simplesmente seguia, tentava absorver e manifestar aquela energia dela.

A dada altura, entrelaçou os dedos da sua mão direita com a minha esquerda, e fez com que a minha outra pousasse bem acima da bunda dela. Sim, a gente cresceu praticamente junto; sim, ela era o mais perto que eu tinha de uma irmã, mas eu sou (quase) homem, e não consegui deixar de sentir a temperatura cada vez mais alta, ou meus pulmões se atrapalhando quando ela encostou a cabeça no meu peito, porque nunca tinha experimentado tanta proximidade com ela. E estava gostando.

Será que isso sempre foi assim? E eu não sabia?

O momento estava se estendendo, e por mim, ficava assim até o fim da noite. Ou até eu sentir aquelas mãos idiotas segurando a minha cintura e puxaram para trás. Girei por causa do desequilíbrio, e vi de relance o sorriso do sujeito.

Pus as mãos bem ao lado dos quadris para a queda não ser tão forte assim e fiquei assistindo o Cardozo pedindo a Aurora em namoro.

Primeiro, senti raiva por ele ter me derrubado. Depois, essa raiva foi coberta por uma outra camada de raiva diferente, uma que via que ele tinha interrompido o meu momento com a Aurora, a primeira vez que eu realmente pensei que minha mãe tivesse razão e eu estivesse gostando dela mesmo sem saber.

Senti ainda uma outra, mais ácida, quando ela ficou em silêncio olhando aquilo tudo atônita. Olhou pra mim no chão com os olhos semicerrados e um sorriso contido, o que fez meu peito aquecer só de pensar que ela estava quase rejeitando ele depois dessa babaquice. Pisquei duas vezes e lá estavam eles os dois, se beijando.

Levantei e fiquei me sentindo, para além de derrotado, humilhado, algo que odeio profundamente. A situação ficou tensa, porque eu não conseguia disfarçar o meu olhar fulminante na direção de um amigo que simplesmente me atirou ao chão para começar a namorar com uma amiga. Havia engraçados debochando, mas não liguei. Fiquei quieto pelo resto da festa, querendo que acabasse o mais rápido possível.

Mas aquilo era um baile de finalistas. Era aguentar até o sol reclamar o seu trono de novo.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora