O quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar?
Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado.
Lu...
Abri a porta do quarto todo escuro silenciosamente, com passos mais sorrateiros ainda. Conseguia ouvir direitinho o roncar ritmado do Denílson e da Viviane, parecia uma orquestra bem treinada. Fui até ao espaço entre a minha cama e da Viviane e deitei no chão, dobrando os braços e apoiando a cabeça nas mãos. Olhei para cima, imaginando as estrelas no teto e suspirando com a beleza.
Agora sim... acabou.
Suspirei audivelmente, um peso saía de mim e me deixava respirar melhor. Considerando tudo que aconteceu hoje, ontem, nas últimas semanas, meses, anos... tem um gosto ruim saber que não deu em nada. Eu podia jurar que eu não era o único que sentia o corpo mais leve com o toque dela, que alguma parte dela se eletrizava do mesmo jeito que eu quando a gente ficava junto... ou então jurei em vão, e a minha conta de pecados só aumenta. Se eu pudesse tirar algo positivo desse último dia, seria pelo menos o fim da ilusão.
É melhor seguir com resignação do que abrandar por inconformidade e frustração, acho eu.
O farfalhar dos lençóis e cobertores da Viviane irrompeu do silêncio, me despertando dos meus devaneios umas oitavas acima do meu gosto.
— Você... você tem uma cama e prefere o chão? — Bufou abafado, com a boca no travesseiro.
— Me desculpe, acabei falando alto demais. — Sussurrei de volta, não ouvindo mais nenhum som nos minutos seguintes que não fosse a respiração dela. E é isso, acordar para esculachar.
Membro a membro, fui rastejando para a cama, onde tentei continuar encarando o meu céu, mas não por muito tempo. A vida real existe, e em algum momento vou ter que voltar para ela.
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— Não tenho nada pra falar, sendo sincero. — Disse Denílson enquanto enfiava a fatia de pão na boca — Você tem certeza que...
— Sim. — Cortei de olhos fechados, suspirando uma vez mais.
— Queria muito saber que lógica de engenheiro foi essa daí de pedir conselho de relação para o solteiro. — Bufou Viviane, desviando o olhar para beber água da garrafa dela e dando de ombros no fim — Vai perceber.
— Primeiro que você não pede dicas para pescar um peixe pro peixe, né, você fala com o pescador. — Insistiu Denílson de boca cheia.
— É? Deve saber muito de pesca esse pescador, ó o barco dele quase afundando de tanto peixe que apanhou com o talento dele. — Ele se limitou a imitar os gestos dela e a fazer caretas — Perdeu no argumento, né? Idiota...
— Gente... — Abri os braços e sorri na minha melhor imitação de Gandhi — Tá tudo bem. Vai que não era pra ter acontecido nada mesmo.
— Se você diz... — Viviane deu de ombros enquanto mexia despretensiosamente no copo de iogurte na frente dela com a colher — Agora não dá pra chorar pelo leite derramado mesmo. Só não... só não desanima. Se realmente fez o que você disse, é bem provável que ela não quisesse nada desde o início.