IV - Desgaste

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Ela própria devia ter visto a cara dela. O olhar confuso, o ar desesperado, a respiração ofegante... e eu, como espectadora. Adorando aquilo.

— Ai, e-eu... — A voz dela vacilava, sem conseguir formular uma palavra.

— Não, eu não quero saber. Eu tava dormindo, porra, tem tanto lugar pra isso. — Ficou em completo silêncio, engolindo em seco. Abriu a boca e inspirou fundo, mas logo interrompeu o que queria dizer — Tô fora.

— Não, não! É que se for por minha culpa, eu mesma saio daqui.

— Nem esquenta. — Calcei meus chinelos, peguei um casaco da mala que tinha deixado aberta, fechei e saí do quarto, provavelmente mais enojada do que irritada. Será que o fogo era assim tão incontrolável que não podiam encontrar um quarto que não estivesse ocupado?

A partir das escadas, o meu olhar já tentava cruzar aqueles volumes escuros e enormes de cabelo da Vitória, mas só conseguia ver um monte de gente falando alto e rindo, como se a entrada do prédio estivesse servindo de palco para alguma festa de boas-vindas. Continuei descendo, meio hesitante, e sempre procurando por ela entre as pessoas, até que alguém puxou a minha camisa no meio da multidão.

— Luana? Meio perdida?

— Cara, tava procurando por você. Queria perguntar um negócio... posso mudar de quarto? — Perguntei com um tom simpático para ver se conseguia convencer ela.

— Não. Seu quarto é adequado às suas preferências e necessidades. E seus companheiros também são parecidos com você. — E é verdade na teoria, eles realmente fazem um monte de perguntas na hora da candidatura.

— Acho que vocês se enganaram.

— Por quê?

— Não bati o santo com minha colega de quarto.

— Mas você só conheceu uma delas! Além disso, trocando de quarto você estaria tirando a oportunidade de alguém de estar num quarto adequado a essa pessoa.

— Ah, mas tem uma renca de gente por aí no mundo, alguém deve pensar o mesmo que eu, ou muito parecido.

— Mas não tem uma renca de gente dentro da universidade. Para além disso, perder um companheiro mais... — Vitória pediu um segundo com o dedo e subiu na cadeira atrás da mesa da entrada para gritar um "Vamos parar de agir que nem búfalo, porra?!", descendo e voltando com uma prancheta e um sorriso, como se nada tivesse acontecido — ... perder um companheiro "que não seja bagunçado ou muito bagunçado" para um companheiro aleatório é de boas pra você?

— Acho que sim.

— Okay, fazemos assim: se você encontrar alguém que goste do que você gosta, tenha as mesmas preferências de companheiro e a mesma alergia que você, e que não se importe de trocar de quarto, eu troco rapidão.

— Mó trampo, por que tudo isso?

— Você que quer trocar de quarto, eu não. Não posso ter o trabalho burocrático sozinha, né? Ah, e convém que o seu novo parceiro seja do sexo feminino, claro.

— Por que não masculino?

— Por algum motivo esse bloco é exclusivamente feminino, calhou que atendemos às suas expectativas. "Confirme na caixa abaixo se há algum problema em partilhar o dormitório com homens", e pelos vistos tá confirmado. Os mistos são o P e o R. — Meu sangue gelou naquele instante. Os quartos são proibidos para homens?!

— Taná, 'cê vai perder essa rodada. Mais uma antes da reunião, vai! — Gritou uma moça que veio correndo na direção da gente, que travou o ímpeto do corpo com os braços no aro da porta.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora