Olhou para mim de cima a baixo várias vezes só naquele instante, como se tivesse perdido alguma coisa no corpo, olhando tão intensamente que parecia que as minhas roupas eram inúteis, uma formalidade. Pigarreei e dei um passo para trás para evitar perder o controle do corpo.
— Gabriel... oi.
— Tudo bem? — Olhei com mais atenção e os seus olhos... pareciam normais. Como eu sempre vi. Agora que você deixa eles normais?
— Sim.
— Sim? — Deu uma risada leve, ajeitando rapidamente as tranças — Ótimo.
— Não vejo você tem algum tempo já. — Disse completamente distraída nos seus olhos ainda.
— Andou procurando por mim então.
— Quando você não sai da cab... — Parei a tempo, meus olhos abertos em surpresa pela minha boca descontrolada — Digo, não... só não vejo você tem muito tempo. Principalmente nas aulas que a gente normalmente tem junto. — Ri sem graça, sentindo meu rosto esquentando de tanta vergonha.
— É, em vez de ficar dormindo, arranjei alguma coisa útil para fazer com o meu tempo lá. Mas ó, você viu a Sandra? A gente ficou de se encontrar mais cedo e não vi ela em lado nenhum, não atende, nada. E temos que entregar um trabalho, então...
— Não. — Franziu o cenho e inclinou a cabeça para a esquerda — A gente meio que tá brigada, eu não vejo ela desde hoje de manhã — Disse baixinho. O sorriso dele afrouxou um pouco.
— Pô, façam as pazes logo, ver vocês era maior resenha. — E de volta ao sorriso brilhante, fez até o meu coração aquecer — Eu vou esperar pela notícia dela. Tô indo lá no centro urbano, a gente se vê por aí.
— Centro urbano?
— Sim... pera, você ainda não foi ao centro urbano? — Neguei com a cabeça. Ele parecia sorrir ainda mais, com um olhar ávido. Se aproximou mais um pouco, e o ar nos pulmões simplesmente desapareceu — Eu levo você. Me dê o seu celular. — Disse num tom tão suave que quando dei por mim, o nome Gabriel Ater estava gravado num contacto — Esqueça por aí, a gente se vê no centro, assim que você quiser. — Se afastou lentamente, acelerando o passo já longe de mim.
Tive que limpar as minhas mãos húmidas na roupa, andando agora de volta para o prédio com toda a interação reprisando na minha mente. Eu fui totalmente randomizada, sem nem ter ocorrido uma única vez de ter dado um chega pra lá nele.
Assim que cheguei ao prédio, fui logo para o quarto um bater a porta. Vitória apareceu descalça, de shorts e blusa, com uma toca no cabelo e uma máscara que parecia de barro no rosto.
— Luana, Luana... entre. — Diferente do meu quarto, o quarto dela era todo branco, com vários quadros e algumas estátuas nos cantos, e o chão de madeira escura e envernizada. Tinha um beliche enorme na parede do banheiro, deixando um espaço vazio enorme onde ela tinha um tapete cinza com padrões aleatórios. Tocava uma música bem calma, que na ponta dos pés ela foi desligar.
— Quarto de supervisor é outra coisa mesmo, hein.
— Tô no último ano, Lu, seria uma boba se o meu quarto não fosse melhor que o vosso. Menos boba que você mesmo assim. O que deu em você? — Expirei o ar dos pulmões cansada.
— Não sei, cara. Eu não tava legal naquele dia, e ela conseguiu puxar os fios certos. Se não fosse a Sandra, estaria arrumando as malas agora. — Abanou a cabeça com os lábios encolhidos.
— Nem precisa ir tão longe: na queixa que ela fez, você atacou ela sem motivo. Se a Sandra não desse o detalhe da provocação, ou se a Emily tivesse rebatido as suas alegações da provocação inicial, o caso agora já seria todo diferente. Mas é aquela coisa: agora vai ter que cumprir, e eu não vou poder fazer grande coisa porque o meu dever é ser imparcial. — Deu de ombros, olhando em volta como se estivesse procurando algo.
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
