O quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar?
Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado.
Lu...
De quem foi a ideia de botar uma aula de anatomia de manhã cedo desse jeito? Deve ser a mesma pessoa que escalou esse verdadeiro ancião para dar a aula, tentando atentar contra qualquer alma acordada nesse auditório.
Não só o homem fala lento, mas também é repetitivo; fiquei contando na minha cabeça quantas vezes eu repeti a palavra "musculoesquelético", ou a frase "recomendo o atlas de Sobotta, que de um ponto de vista didático é melhor que o do Netter", signifique o que significar. Olhava em volta para saber se era o único a passar pela situação, e tirando as caras das pessoas do fundo que eu não conseguia ver direito, não dava para ver uma pessoa sem bocejos ou de olhos completamente abertos.
Em algum momento, botei meus cotovelos sobre a mesa e deixei minha cabeça repousar sobre as minhas mãos. Não só não conseguia me sentir mais confortável, como parecia que o tom monótono do Dr. Ivan não parecia mais tão velho. Não parecia mais tão gasto. Não parecia mais tão... não parecia...
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— Gabriel? — O toque frio de mãos suaves me despertou imediatamente. Fiquei um pouco aturdido, tentando aguentar o tranco da dor das lentes nos olhos e procurando o dono daquelas mãos. Ou a dona.
— Luana? — Meus tímpanos finalmente receberam a onda de vozes e gritos das pessoas em volta. Algumas passavam por trás dela e empurravam de leve, e ela virava para trás várias vezes com o olhar tenso e o nariz torcido. Quando os nossos olhares cruzaram novamente, o ar nos pulmões desapareceu, e parecia que não vim com a configuração de fábrica que sabe respirar. Odeio quando isso acontece, continuo o mesmo adolescente emocionado de sempre.
— Não sabia que você tava cursando medicina, pensei que você odiasse matérias de biologia na escola. — Eu sei que ainda ano passado a gente dividiu a escola, mas foi só isso. Ela lembrar de um negócio desses é meio estranho.
— É... não mudou muito não. Aqui é time anti-biologia e as suas amiguinhas, hehe. — Disse fazendo um gesto de paz e abanando na frente da cara. Estava sentindo a minha dignidade apodrecendo dentro de mim — Desculpe. Quis dizer que entrei em engenharia... — E olhou de novo para trás. Sentei no lugar do lado esquerdo do meu e dei umas batidas no livre, que ela correspondeu com um sorriso largo.
— O curso que você escolheu não tá ajudando assim tanto então. — Levantei os ombros e contraí os lábios para ela, resignado. Só preciso passar por isso para trabalhar com aquilo que eu realmente quero.
— Obrigado. — Falei baixinho, mas que fez os olhos dela pousarem sobre mim, oscilando entre um e outro olho. — Por me acordar. — Sorriu, desviando o olhar. E agora são as minhas mãos que estão sem paradeiro.
— Foi nada. Eu... eu queria me desculpar com você. Tem uns dias que a gente se encontrou naquele trânsito horrível de domingo, e eu tava puta porque tinha brigado com meus pais mais cedo, e tinha esquecido um montão de coisa em casa... mas você não tinha nada a ver com esse rolê todo. Me desculpe. — Falou tudo isso sem uma vez ter olhado para o meu rosto. Ela... ela tá com vergonha? Essa ideia me fez abrir um sorriso muito, mas muito maior do que eu gostaria.