— Não percebi direito, galera, acho que tem detergente no meu ouvido. Vocês já se conheciam? Como assim? — Perguntou Nina a partir da cozinha.
— Ele disse que conheceu um moço que ajudou ele com um problema do carro. — Disse Sra. Letícia, sentada no sofá com Sr. Carlos — Não tinha como saber que era ele.
— Nem eu. — Disse o próprio — Deus é impressionante! Você sabe quando a gente se conheceu? — Perguntou para a esposa apontando para mim com o dedo.
— Sei que você ficou uns bons dias falando sobre isso, isso que eu sei...
— Foi no dia em que você disse que faria um esforço pela gente se eu conseguisse cumprir com aquele horário em específico. E tava tudo contra mim naquele dia, porque...
— Não quero falar de divórcios na mesa, por favor. — Pediu Nina atrás da gente.
— Não estamos na mesa, sua chata. E não estamos a falar de divórcio, estamos falando sobre o milagre que foi esse rapaz ter aparecido naquele dia. — Respondeu Sr. Carlos.
— Tá bom, me desculpe. Não tá aqui quem falou, tá? Almoço tá servido. — Levantámos ao mesmo tempo e fomos para a mesa. Sr. Christian e Sr. Carlos estavam nas pontas da mesa, um de frente para o outro. Eu estava de frente para a Karina, os dois perto do Sr. Christian — A chef preparou a boa e velha feijoada. — Pediu o prato dos dois caras nas pontas e serviu. Eu e Sra. Letícia servimos o resto dos pratos.
— Antes que comecem a comer. — Pediu Sr. Christian, pigarreando em seguida — Infelizmente, Isa não está presente.
— Isa? — Perguntei.
— Isa é minha filha. — Disse Nina. Filha?! Nina tem uma filha e tá assim?! — Não se preocupe, ela é... que idade você tem?
— Faço dezoito em setembro.
— Caraca, é da sua idade mesmo! Por quê ela não veio, pai? Era a oportunidade perfeita para ela conhecer o filho do Chris também.
— Estava se preparando para algum teste, não sei.
— Ela é mais... fechada. Talvez você tenha mais dificuldade em se entrosar com ela, ou ela com você, mas... é como qualquer coisa na vida.
— Infelizmente, né... — Retomou Sr. Christian — Isa não está aqui. Eu queria que estivesse para, uma vez mais, pedir desculpa pela forma como as coisas aconteceram. Sendo pai, eu não me sentiria de forma nenhuma confortável com a situação em que coloquei vocês, mas eu peço que me entendam. Quando temos o poder de tomar uma decisão que pode mudar a nossa vida, temos o direito, que eu até acho que é dever, de sermos egoístas. De pensar na gente. Somente tendo o melhor para mim, consigo dar o melhor para os outros. — Pausou por um segundo, como se estivesse fazendo contas mentalmente — A decisão mais egoísta que eu pude tomar foi escolher a minha felicidade. Foi, em muito tempo, priorizar justamente aquilo que eu queria. E a vossa filha tem relação direta com isso, a prova é o casamento. Por isso insisti tanto em fazer as coisas acontecer, por isso estou apresentando a minha família... viva. — O olhar deles todos recaiu sobre mim em vez dele.
— Minha mãe não morreu, só para... — Brinquei, fazendo eles rir um pouco.
— Douglas, não é? — Perguntou Sr. Carlos. Sr. Christian só consentiu — Você foi, na verdade, uma grande surpresa para mim. Positivamente porque eu vejo o jeito que você mudou Karina, o jeito como as coisas mudaram até antes de terem anunciado esse noivado, que é justamente a minha surpresa negativa. — Ele falava eloquentemente, gesticulando de uma forma tão gostosa de acompanhar que quase me distraí com o que ele estava dizendo — Quando descobri que você tinha uma empresa, fiquei confuso, porque normalmente esse tipo de pessoa costuma ser mais cauteloso, mais sistemático lidando com esse tipo de situação. — Quase virei o prato da mesa. Christian Ater sendo criticado por agir de forma imprudente? Negligente?! O que está acontecendo no mundo?
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
