Acordei sobressaltada com as cutucadas nos lábios da Sandra.
— Qual foi?! — Perguntei limpando a cara agressivamente.
— Você não acordava de jeito nenhum! Se eu não tivesse checado seu pulso, tinha chamado a ambulância.
— E por quê eu teria que acordar tão cedo?
— Não sei do que você tá falando... são oito da manhã, e se você quiser respeitar sua grade horária, sair da cama era um bom começo. — Arregalei meus olhos depois de ver o celular, o sono desaparecendo do meu corpo em segundos.
25 de fevereiro, 08:07.
Essa não, essa não...
— Essa não...! — Deixei escapar. Passei voando por ela com a minha toalha para tomar o banho mais rápido que consegui. Se era para me acordar assim, por que é que não acordou mais cedo?!
— Você é a primeira pessoa que eu vejo na vida preocupada com o primeiro dia.
— Não é uma questão de primeiro dia. — Bufei enquanto dobrava os meus edredons e tudo que tinha atirado por aí enquanto lutava para sair do quarto para o banheiro — É uma questão de primeira impressão. É a que fica com você para o bem ou para o mal.
— Assim, a gente tá numa turma de...
— Como assim a gente? — Interrompi rapidamente.
— É, a gente. A não ser que tenha outra... — Parou de falar e aproximou o celular do rosto — ... Luana Eleanor Cruz Roberto cursando medicina na minha turma.
— Você tá em... pera, como você sabe meu nome completo?
— Bem... — Abanou o celular antes de pousar em cima da cama com roupa toda esticadinha e começou a me ajudar a ajeitar as minhas roupas — ... para começar, vi alguém chamado Luana na minha grade horária, e fui conferir com a Vitória quem era. — Lençol, edredom, sapatos, roupa... tudo check. A única coisa fora de lugar agora era a minha presilha, que ela estava se esticando para pegar, mas consegui me adiantar e peguei primeiro.
— Não precisa arrumar uma presilha também, né. Deixa comigo. — Pedi com um sorriso descorado enquanto guardava aquilo num bolso especial da mala. Ela só franziu o cenho antes de dar de ombros.
— Então tá. Vamos?
— Tô te devendo uma, cara. — Sandra correspondeu com um risinho e me acompanhou na corrida até ao aí edifício onde fui na primeira vez e encontrei os cacifos.
— Bem, a gente precisa encontrar o bloco "NET", seja o que isso for. Vitória disse que era só a gente prestar atenção ao topo das portas. — Fiquei procurando algum detalhe importante naquela decoração linda, e sem nenhuma resposta — Achei! Vem comigo. — E fiz como ela pediu, tentando saber de onde ela estava tirando aquela orientação toda, sabendo que a gente chegou quase ao mesmo tempo. Olhava para as paredes, portas e corredores... era tudo familiar, mas não conhecia nada. Até que parámos em frente a uma porta número dezessete — Dezessete no NET, confirma. — Mostrou o celular com um mapa e legenda dos lugares, em que afinal o "e" é minúsculo.
— Só bora. — A pressa era tanta que só empurrei a porta, dando de cara com um auditório de tamanho modesto e com um forte cheiro a livros velhos e cimento. No palanque e virado para o quadro estava um cara mais ou menos com a nossa idade, que rodou sobre os calcanhares para olhar para a gente.
— Ou não. Dá meia-volta, esse cara deve estar fazendo trote. — Sussurrou Sandra, que tentou pegar na maçaneta mesmo estando de costas.
— Ei, ei... espera aí! — A voz grave dele ecoou pelo lugar, seguida pelos barulhos dos sapatos de couro dele batendo contra o palanque — Bioquímica, Dr. Eugénio Rosa? — Perguntou, e virei instintivamente para Sandra.
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Olho de Âmbar
RomansaO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
