XI - Ressaca

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Toda quebrada, despedaçada, e começando a sentir dor de cabeça... mas era impossível dormir.

E as condições eram as perfeitas: nem um pouco de barulho, tirando o roncar sistemático da Sandra e alguma agitação do vidro por causa do vento; o quarto completamente escuro, o suficiente para que tivesse dificuldade em distinguir a cor das paredes, mesmo sabendo qual era qual.

Estava me levantando para lavar a cara pela terceira vez já. Talvez seja isso.

No caminho para o banheiro, fiquei encarando o box, pesando se devia tomar outro banho ou não. Suspirei indecisa, me limitando a ficar de frente ao espelho da pia. Liguei as lâmpadas e liguei a torneira, observando o curso sereno e silencioso da água, que espelhava a iluminação dourada, fazendo parecer um poço de mel enorme... desfiz a imagem que estava se formando e peguei alguma e passei pelo rosto.

Esfreguei insistentemente os olhos, e parei para olhar o meu reflexo no espelho. Olhos avermelhados, olheiras, sorriso fraco... minhas mãos apertavam cada vez mais forte a pia.

Será que não estou conseguindo dormir por causa daquele par de olhos mais cedo?

A intensidade com que olhou para mim que sempre consegui evitar, a diferença gritante e hipnotizante entre as cores que nunca reparei... por que ele me ignorou? Eu estava errada? Eu... não.

Não.

Não.

Não!

— Porra, Luana. — Suspirei irritada para mim mesma — Você saiu de casa para resetar tudo, provar que você é capaz de fazer e aguentar o que você quiser, que não precisa do Will querendo salvar você a cada passo. Para voltar a viver de verdade. Não pra isso. Você sabe o que aconteceu da última vez. — Uma nova onda de memórias que tinha deixado num canto da minha mente me atingiu, provocando um nó na garganta e um ardor nos olhos. Peguei mais água e joguei no rosto, passando devagar dessa vez — Eu espero do fundo do coração que isso não passe de um efeito colateral daqueles cigarros de ontem.

Lavei mais uma vez a cara e voltei para tentar dormir. Sentia meu peito apertando cada vez mais, a imagem do rosto do Gabriel cada vez mais presente nas minhas pálpebras. Quanto mais eu tentava esquecer, pensar noutra coisa, mais ele aparecia naquele espaço que era para ser só meu e dos meus pensamentos.

Eu preciso de uma distração urgente. Essa festa foi uma péssima ideia.

Não tenho neurónios disponíveis para conseguir me concentrar estudando o que fosse. Thays e Sury estariam dormindo agora, não vou acordar ninguém para falar de um negócio desses.

Já sei... quando a pessoa não dorme, está sujeita a ter alucinações. Tudo que eu preciso fazer é aguentar até a próxima vez que for dormir e deve estar tudo bem. Passei as mãos pela cara com força. A escuridão do quarto estava diminuindo rápido demais, o que significava que o tempo de descanso seguiu pelo mesmo caminho. Sentei na cama, procurando desesperadamente pelos meus chinelos. Assim que encontrei, decidi sair do quarto. Procurar um parquinho, respirar... não sei. Vitória estava limpando o espaço da entrada no prédio, arrastando tanto os pés descalços que provocava aquele som estridente irritante. Assim que ouviu os passos, virou para trás num pulo.

— Sabe que depois de uma noite como a sua, você precisa dormir, né?

— É... — Suspirei. Ela olhou para mim de lado, mas continuou apanhando os lixos do chão.

— Onde tá a Pavlova do Rio? — Dei um risinho leve lembrando da Sandra dançando.

— Tá lá em cima, roncando que nem um motor.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora