Outra vez, acordei sozinho, e com a perna engessada entre travesseiros. Botei o pé bom para fora da cama, tentando encontrar os chinelos só com os pés, e acabei por bater em algo mais duro. Os tênis da Lu, quando olhei para conferir.
O odor que exalava estava me incomodando tanto que não me importei mais com o esforço que faria para poder tomar banho, simplesmente levantei e fui para o banheiro seguir aquele protocolo de manobras fatídicas. Agora de roupas frescas, saí do quarto e desci as escadas vagarosamente, evitando ao máximo fazer o contacto entre as muletas e o chão ruidoso para surpreender Luana. Na cozinha, ela estava de costas para a porta, procurando alguma coisa em um armário muito alto. Deve ter sido ela. Tal como ela tinha feito ontem, me aproximei o suficiente para abraçar pelas costas, baixando um pouco para beijar a sua face e seu pescoço três vezes.
— Você tem um sono muito... interessante. É a palavra certa. — Comentou com um sorriso divertido.
— É pesado.
— Não é isso. Você fala. — Me aproximei mais do seu ouvido.
— O quê?
— Quem é Cardozo? Você tava macetando o cara na porrada, pelo que entendi. — Fiquei sem reação, a vergonha limitando os meus movimentos. Impossível eu ter falado um negócio desses em voz alta — Gabi?
— Ahh, Cardozo é um cara que... — Se aproximou da minha cara e me beijou rapidamente, voltando a fazer o que quer que estivesse fazendo antes — Quer saber? Não importa, não perde nada.
— Então tá. Imagino que você tenha fome pelo menos, guerreiro.
— Se for de você, eu terei fome sempre. — Olhou para trás e fez uma careta rápida.
— Falando em ter fome... eu tava pensando em organizar um jantar. Na minha casa. O que você acha? — Pigarreei, sentindo o meu coração disparar no mesmo instante.
— Quando você diz jantar em sua casa, diz...
— Com todos de casa. Acho que era uma boa, eles passam a conhecer o cara que eu tô toda hora falando, você aproveita e conhece eles...
— Tava pensando em ir quando?
— Essa é a parte que você não se preocupa. Tá fechado então.
— Não organizam um jantar aqui em casa também por quê? — A voz da mamãe brotou do corredor. Girei o corpo tão rápido que desequilibrei com as muletas e caí de costas — Cuidado, Gabriel! Você tá bem?
— A senhora quer me matar de susto?
— Não me ouviu abrindo a porta? — Abanei a cabeça. Olhei para Luana, que não tinha arredado o pé de perto do fogão, e para mamãe, que carregava um sorriso no semblante aflito — São sete da manhã, você costuma dormir mais.
— Bem, não hoje. — Respondi. Ela ergueu uma das sobrancelhas, inclinando ligeiramente o rosto para frente e pigarreando ligeiramente em seguida. Luana, que afinal estava bebendo água, engasgou no mesmo instante. Mamãe atravessou a cozinha e foi dar alguns tapinhas nas suas costas... nas minhas roupas — Não, mamãe. Não foi isso que eu quis dizer...
— Podia tentar ser mais discreto também, né. — Disse entre risadas e carícias no cabelo da Luana — Conto com você para o almoço, meu bem? Eu vou só tomar um banho e já desço para preparar...
— Muito obrigada, Sra. Sara, mas tenho um compromisso daqui a pouco, só não queria sair sem... preparar um café rápido para o Gabi.
— Poxa, tem certeza? Eu faço um almoço rápido para a gente.
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
