O quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar?
Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado.
Lu...
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— Meu Deus, você não... que burrice. Você passou a noite aqui. — Ouvi uma voz vinda de todas as direções, sempre distante.
— Sim. — Disse levemente atordoada pelo sono ainda. Não levantei a cara imediatamente, continuei com a cabeça baixa, testa apoiada nos braços em cima do joelho. Assim que levantei, vi Sra. Sara sentada do meu lado.
— Não. Vá descansar, por favor. Não quero que massacre seu corpo, pode voltar mais tarde.
— Não precisa.
— Você precisa descansar direito.
— Não ia dormir de qualquer forma, Sra. Sara. Seu filho...
— Vai ficar bem.
— Eu não. Eu preciso ver ele, preciso... não dá.
— Não posso deixar que você continue aqui. Já falou com os seus pais?
— Eles vêm aí, não se preocupe.
— Vem comigo então, a gente pode ir para a cafeteria comer alguma coisa. — Levantei e fui arrastando os pés, bocejando ocasionalmente. Assim que a gente chegou, soneguei um pouco com o cotovelo em cima da mesa e a cabeça em cima da mão. Quando abri os olhos, vi uma bela, colorida e volumosa bandeja com uma tosta com leite e banana.
— Imensas desculpas por ontem. — Engasguei. Não esperava que ela comentasse tão descontraidamente sobre o assunto — Você tá bem? — Levantei o polegar para ela — Eu realmente me sinto mal por isso, só que... não consegui controlar.
— Entendo, eu também tenho os meus acessos de raiva de vez em quando. — Ficámos em silêncio em seguida — Correu bem a extração? — Chutei. Ela não tirou os olhos do café enquanto balançava a colher e mexia num movimento circular constante.
— Correu sim. Consegui que extraísse quinhentos mililitros de uma vez.
— De quanto Gabriel precisava?
— Muito menos que isso, mas você sabe, meu tipo pode dar para todo o mundo... — Ela começou a contrair um músculo específico na cara.
— Mas apenas recebe dele mesmo. — Disse devagar enquanto olhava aquilo — Senhora, tá bem?
— Não se preocupe, esses espasmos acontecem de vez em quando, preciso é de tomar a minha pílula. — Sacou medicamentos e engoliu com água que tinha perto dela. Ficou um pouco calada antes de continuar — Fiquei um pouco tonta no fim, não vou mentir. Para ajudar, o Dr. Leandro recomendou que comesse feijão, banana...
— Mufete. — Sugeri.
— Quem?
— É um prato gostoso pra caramba, que leva banana e feijão. Você devia experimentar. É vendido no restaurante onde Gabi tava trabalhando antes... disso tudo.
— Vou experimentar. Vamos os três.
— Claro. Seria um prazer. — Depois de comer, fomos para as cadeiras de sempre, esperando que Leandro já tenha entrado e esteja trabalhando naquele rapaz. Milagrosamente, quem estava saindo do bloco operatório era mesmo ele.