XXXVII - Ponto sem volta

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Estava sentado no sofá com o controle na mão, mudando de canais aleatoriamente.

"Eu chorei e gritei, mas ele simplesmente me ignorou..."

Meu estômago revirou de novo.

"... para hoje querer que eu perdoe ele, que eu volte para a vida dele?"

Desliguei a televisão e limpei a cara com força. Se eu não respirasse fundo, meu coração ia furar o seu caminho para fora do meu peito de tão forte que batia. Levantei do sofá e fui até a cozinha pegar um copo de água.

Dois... três copos...

Quer saber? Vai o jarro todo comigo para a sala.

No caminho para a sala, a porta do escritório abre de repente, e mamãe irrompe das sombras que nem um raio e de costas para mim enquanto fechava a porta silenciosamente. Fiquei olhando aquilo por algum momento, indagando se ela realmente não notou a minha presença esse tempo todo.

— Tá tudo bem? — Perguntei no momento em que fechou a porta. Encolheu os ombros e deu um grito estridente.

— Menino! — Partiu para cima de mim e deu três tapas no meu ombro — Qual é o seu problema?!

— Desculpa, desculpa, pensei que a senhora me viu! — Falei rindo um pouco, levantando o braço direito para me defender.

— E tá andando de fininho pra quê?

— Andando de fininho? Eu? Eu só tô descalço. E... por que a senhora tá trancando o escritório? — Franziu o cenho para mim.

— Hã? Eu não tô trancando. — Apontei com o queixo para as mãos dela na fechadura, literalmente segurando chaves — Ah, isso daqui. Eu... não tô trancando. Não literalmente, pelo menos. Tô testando todas as chaves disso aqui para saber qual é de qual. Engenheiro não gosta de catalogar as coisas?

— Por acaso é cientista que gosta disso. Deixa que eu ajudo a senhora. — Pousei as coisas que estava levando até a sala no chão e estendi a mão, que ela afastou com o cotovelo a primeira vez.

— Precisa não. Me ajuda com o...

— Pô, mãe, isso é um monte de chave, deixa que eu faço isso pra você. — Continuei a tentar pegar as chaves, e dessa vez, me empurrou com o ombro.

— Larga, porra! Não precisa. — Respondeu com os olhos acesos, olhando para mim totalmente irada. O que ela está guardando aí dentro?

— Nossa... tava só tentando ajudar. — Levantei as mãos em rendição — Vai ficar se divertindo aí mesmo. Tá escondendo pista para um mistério aí dentro por acaso?

— Larga de bobagem, garoto. Agora deixa eu acabar isso daqui, e não entra aqui sem eu deixar você. Tá uma bagunça aí dentro, e não quero perder nada. Dou um jeito depois.

— Tá.

— Tô falando sério.

— Tá bem, Dona Sara, poxa... — Peguei as coisas do chão e fui com elas até a sala, mas quando vi a televisão desligada, perdi a vontade de assistir. Inspirei fundo, deixei o jarro de água lá e apaguei as luzes todas da sala.

— Boa noite! — Gritou mamãe do corredor do escritório.

— Beijos! — Gritei de volta, subindo a escada sem qualquer vontade.

De luzes apagadas mesmo, me joguei direto na cama e peguei no celular para fuçar alguma coisa interessante. Olhei para a galeria e lembrei da foto da DETRAN, que eletrizou o meu corpo. Corrigi a minha postura na cama e peguei o notebook da mochila da faculdade.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora