— Eu avisei para você dormir mais cedo! Moleque cabeça dura, agora tá atrasado! — Meu corpo ejetou da cama, e tudo que eu vi foi minha mãe segurando a porta antes de fechar rápido.
Quantas vezes o arrependimento bate logo depois de ter tomado uma decisão?
Seja por causa da adrenalina, ou porque me assustaram, como for... não tem o que justifique voltar a mostrar a roupa original para a sua mãe tão tarde na vida sem um motivo muito forte.
O sono evaporou, sentia a jugular latejando no pescoço enquanto tateava, todo atrapalhado, para pegar algo para cobrir o meu corpo. O pique foi clareando a minha visão e juízo aos poucos enquanto a voz de grito da mamãe ecoava na minha cabeça.
— M-mas meu despertador nem tocou ainda. A senhora...? — Tentei argumentar, mas as palavras morriam fácil na minha boca. Olhei para baixo e vi duas sombras na fresta se mexendo debaixo da porta, seguido de quatro batidas na porta — Pera! — Do outro lado da cama tinha uma sunga e uma camiseta que botei de qualquer jeito — Vai.
— Oi, filho. — Começou com um tom de quem quer se fazer de inocente — Sabe, é que eu esqueci que botei meu alarme mais cedo porque pensei que a viagem era hoje de manhã. Me desculpe, se quiser ainda tem... cinquenta e dois minutos. — Não consegui disfarçar a surpresa. Mamãe admitiu que está errada? — Tá olhando assim pra mim por quê?
— Qual é a desse clone da Sra. Sara que tá pedindo desculpa, também voa? — Acendeu os olhos e ameaçou um tapa, mas consegui esconder a cabeça a tempo.
— Idiota! — Empurrou o meu ombro com uma força maior que eu estava esperando, então o meu corpo simplesmente foi junto. Quando recuperei a postura, fiquei olhando em volta por alguns instantes.
— Pensei que fosse aproveitar os seus... — Olhou para o pulso — ... quarenta e oito minutos. Descansa, bebezinho da mamãe. — Esticou a mão pra apertar a minha bochecha.
— Pô, mãe... tô saindo de casa pra "viver sozinho"... um bebezinho já não é o melhor nome. E falando em bebezinho... por quê você pediu para o Sr. Christian me levar?
— Eu sei que pra você pode ser um absurdo enorme, mas seu pai pode ser bem generoso.
— Não, a senhora não tá entendendo. Ele se ofereceu para lavar a loiça ontem. Pediu pra eu dormir cedo, porque era possível que ele me levasse. O Sr. Christian. Isso é atitude de quem ganhou na mega-sena. — Revirou os olhos bufando, o seu rosto desviando para o outro lado.
— Sempre essa merda...
— Não é como se... — ... ele mostrasse o contrário, ou como se eu quisesse ficar aqui para aturar mais. Inspirei fundo antes de continuar — ... enfim, para onde a senhora vai?
— Por quê? Quer que eu leve você?
— Quer me levar?
— Não é mais o bebezinho da mamãe mesmo, né? Se vira. Aliás, Sr. Gabriel, tem que comunicar os boletos que tem que pagar para este mês, que eu e meu marido não pretendemos ter um inquilino folgado. — Suspirei derrotado, voltando para os meus cobertores quentinhos.
— Tá... eu já tava pensando em ir sozinho. Vou só dormir mais um pouco.
— Se bem que tava pensando em dar um salto no condomínio da Cássia... — Foi em direção ao banheiro e pegou de lá a minha toalha, que voou até ao cantinho da minha cama — ... mas saio dentro de dez minutos. Mas aproveita o seu descanso, tá? — Assim que ouvi a porta batendo, afundei a cara no travesseiro e soltei um grito.
Abri a gaveta da escrivaninha e higienizei as mãos para poder botar as lentes de contacto o mais rápido que eu consegui. Fui correndo até ao banheiro e tomei um banho relâmpago completamente ineficiente, porque a pressa fazia com que o gel e a água fossem para qualquer local exceto o meu corpo, e isso só aumentou o meu tempo de banheiro. Mal saí, fui ao guarda-roupa e puxei (destruí) as pilhas que levaram séculos para mamãe construir. Enfiei o que consegui na mala e comecei a arrastar logo para baixo, para perto da porta de saída e também para a origem do cheiro a comida da mamãe.
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Olho de Âmbar
RomansaO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
