XXVIII - Inconveniência

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Acordei sozinho no sofá. Estava completamente coberto, e com almofadas debaixo da minha cabeça. Ergui a cabeça e olhei em volta, não me apercebendo da presença de ninguém em volta. No chão, um par de tênis a mais. Ela ainda estava aqui em casa.

Quando voltei a reclinar a cabeça, prontinho para voltar a dormir, senti uma cãibra na coxa. Comecei murmurando, sentindo o sono contendo a minha voz, e fui aumentando o tom até chegar a um grito, da mesma forma que aumentava a dor e sentia o músculo cada vez mais preso. Luana se materializou na sala num instante.

— Quê que foi?! — Perguntou gritando também. Não consegui dizer nada, somente apontar para a perna e abanar as mãos, estalando os dedos. Pensei que os maxilares fossem se desfazer pela força com que cerrava os dentes.

— Essa merda tá presa!

— Peraí. — Esticou logo as mãos e ergueu a perna. Foi apertando a coxa em direção ao joelho, e apertou assim que alcançou a zona da articulação. Urrei ainda mais de dor. Seus ombros se encolheram e ela largou a perna de onde estava levantando, fazendo com que batesse em alguma esquina rija.

— Droga! Me desculpe, me desculpe, mil desculpas, é que você me assustou. O que eu faço? — Fincava as unhas no meu próprio polegar, tal era a força com que apertava os punhos.

— O que tava fazendo, o que tava fazendo! — Ela pegou na zona mais do tornozelo e foi empurrando na direção da minha cabeça, aliviando a dor. Gesticulei que ela pousasse a perna quando senti que a dor tinha se dissipando por completo — É a falta de movimento.

— Meu Deus, o vaso! — Levantou e foi saltitando na direção do banheiro, se seguindo o som da descarga sendo puxada e do ambientador depois de um silêncio estranho. Seus passos amortecidos pelas meias foram se tornando mais audíveis, até que ela atravessou o aro da porta entre a sala e o corredor olhando para a tela do celular — A gente dormiu pra caramba...

— Hum? Quê que tem? — Murmurei.

— Eu deveria ter entrado em casa faz vinte minutos, são oito da noite já.

— Lu, você não me arranje problema com o seu pai! — Pedi de olhos arregalados. Ela olhou de lado e só riu.

— Deixa de ser bobo. — Mas eu não estou brincando — E eu não queria deixar você assim.

— Deixa você de ser boba. Você me encontrou bem, e...

— Me dê um minuto. — Botou no celular no ouvido e foi para o corredor.

Suspirei e levantei do sofá para ir para a cozinha aquecer o meu jantar. O montinho de louça empilhada na pia me cumprimentava enquanto deixava as muletas por perto. Que merda.

Melhor aproveitar enquanto é só isso.

Mesmo torcendo o nariz, puxei as mangas pra trás e botei a mão na esponja e no detergente, pelo menos enquanto esperava sinal do lado da Luana.

— Gabi! — Gritou. Mesmo sem ver, quase senti o seu sorriso e a animação com que caminhava na minha direção. Quando chegou até a mim, abraçou por trás, provocando algumas cócegas no abdômen — Will não tá lá em casa. Resumindo e concluindo, seu nome será Thays por esta noite.

— Não precisa isso tudo, Lu. Eu tô grandinho já.

— A gente vai fingir que você não é um moleque de dezoito anos e botar mais vinte anos na conta. Eu continuaria agindo do mesmo jeito. Você tá no pós da cirurgia, e tá com a perna desse jeito. Como que ia me sentir sabendo que deixei você assim? — Soltei um longo suspiro. Ela apertou ainda mais, como se estivesse me segurando de um precipício.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora