O quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar?
Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado.
Lu...
Eu olhava para ela e não via nada. Genuinamente, não tinha o que falar para ela.
Por um lado, minha mãe não estava mais com o Sr. Chris. Querendo ou não, se não fosse ele, eu não estaria aqui. Há um fundo de gratidão por tudo que fez principalmente pela minha mãe: foi um bom homem para ela, eles pareciam felizes juntos. E acho que é por isso que a minha gratidão morre um pouco aí, porque ele nunca foi esse homem para mim. E eles são meus pais, mas sinto que a separação deles me alivia mais do que deixa deprimido.
Por outro lado, nunca esperei ver minha mãe desolada desse jeito. O que até é bastante idiota porque da perspectiva dela, foi um casamento que durou pouco mais que a minha vida, meio que não tinha outro jeito. Ir de dividir a cama com uma pessoa para precisar usar uma faca para se defender dela é no mínimo trágico. E quando vi o sorriso forçado que ela esboçou antes de ir embora pelas escadas rumo ao quarto dela... senti alguma coisa dentro de mim quebrar.
A respiração afundou, e tudo porque aquela atmosfera em volta estava começando a pesar. De novo. Dentro de mim, sabia que precisava sair daqui. A sensação das paredes de tons escuros sufocando estava se apoderando aos poucos de mim. Ao mesmo tempo, queria ficar ali. Quieto. Até ver a minha mãe sorrindo de novo.
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Como que só passaram quatro horas?!
Voltar a me habituar a uma sensação ruim estava sendo estranho. E eu sei que só passaram alguns meses desde a última vez que senti isso, mas foi como conhecer cores depois de viver vendo tons cinza e escuros. Literalmente.
A casa é esteticamente bonita. Sr. Chris tem um gosto que aprendi a apreciar com o tempo, uma tendência um pouco moderna; os móveis de casa são retos, sem muita firula, minimalistas e em tons de cinza e cores pastéis. A única coisa que diferencia a cor das paredes os cômodos da casa é o tom de cinza, e o tempo de petrificação do basalto dos mosaicos do chão... tirando a sala.
Esse sempre foi o lugar mais alegre da casa, não só nos tons, como na energia. O chão sob os meus pés foi o lugar onde vivi as memórias mais felizes que tenho nessa casa: era onde eu e Martina passamos a maior parte do tempo brincando e contando histórias. Em algum momento do dia, algum íman atraía a gente para o mesmo lugar de sempre, e isso trazia tanto a filha dela como o genro de vez em quando. Mas quando ela se foi... parecia que o lugar era um tabu. Seguiram todos o seu rumo, menos o cara sem rumo pra seguir.
Me aproximei bastante da Aurora nessa altura. Os pais dela eram um saco pra ela, então fugia aqui para casa. E quando não pudesse, a gente se via de longe. Eu aqui, na varanda do quarto da Martina e ela na varanda da casa dela, e a gente ficava falando em linguagem gestual, mesmo que ninguém entendesse nada. A gente dava risada no fim e se separava, mesmo que isso não fizesse sentido nenhum. Mas fazia. Para depois ela fazer aquele negócio no baile...
— Nem seu pai abriu essa porta. — Ouvi a voz da mamãe com certa rouquidão na voz depois do chiado da porta do quarto da minha vó atrás de mim — E olha que tem muito Ater aqui. Muito mesmo. — Virei na direção dela devagar e soltei um suspiro. Cheguei perto dela — Gabriel. — Quase sussurrou, arrepiando a minha espinha toda. Tensionei os ombros e encolhi ligeiramente o tronco.