XXXII - Instinto

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Se for pra continuar me revirando na cama desse jeito, mais vale levantar.

Olhei de relance para o celular para encarar aquele seis antes dos dois pontos e bater com a mão na testa. É, vou andar por aí.

Arrumei o quarto e tomei um banho rápido antes de descer até a cozinha, aparentemente vazia. Saltei até a entrada da sala para scanear o espaço, também sem qualquer sinal de vida. Quando voltei para a cozinha, um vulto emergiu do balcão como uma ratoeira dispara. Gritámos ao mesmo tempo.

— Um enfarte pra começar bem o dia, né?

— Isso digo eu! A senhora que tava aí se escondendo...

— Não é porque eu tava apanhando essa colher, — Abanou a mão com o talher — é porque eu queria me esconder do Gabriel. Vai catar coquinho, garoto.

— Tava brincando, mamãe. — Abanou a cabeça e revirou os olhos, saindo de trás do balcão até a geladeira. Abriu a porta quando cheguei perto.

— Não tô habituada a ver você acordado tão cedo. — Disse com um pacote de leite nas mãos, fechando a geladeira com o pé — Como foi que a Luana convenceu você?

— Não foi...

— Ou me deixe adivinhar: tá tentando impressionar o pai dela? — Disse com um sorriso divertido, apontando pra mim com o queixo.

— Nem me fala nada, tô achando que não vou pra casa dela muitas vezes não.

— Melhor pra mim, não tenho idade pra ser a vó chata que fica brava com a bagunça dos netos porque os pais têm que ir para a universidade. — Dei uma risada pela fertilidade da imaginação.

— Nada disso. Você vai ser uma vovó fantástica, mãe.

— Vou ver o que dá pra fazer sobre isso.

— Falando em vovó, você lembra do café onde você me levava para tomar aquele café com leite? — Franziu o cenho com a minha pergunta.

— O que é que ele tem?

— Tava pensando em passear um pouco e lembrei que eles tinham uns pãezinhos de queijo que eram uma delícia. Ainda tá aberto? A gente não vai lá tem um tempo já...

— Aquilo agora é da Dona Neusa, provavelmente só fecha quando a linhagem dela acabar. E você sabe que vaso ruim não quebra fácil.

— Quê isso, mamãe, esquece isso. A senhora já tinha pedido desculpas, ela não tinha sujado você de propósito.

— Eu reconheço uma sonsa quando vejo uma, e aquela senhora eu reconheci na hora. A Cândida veio para o Rio esses dias tratar assuntos dela e por acaso passou perto do Lótus. Assim que ela entrou, aquele bando de fofoqueiras começou a falar da minha separação em voz alta.

— Como que elas sabem? — Deu de ombros e bebericou da xícara.

— Não faço ideia. Mas sabe o que eu sei? Todo o bairro sabe que a Sara tá divorciando, e tem gente que não sabe nem quem é a Sara. Enfim, fazendo a minha parte, não leve a Luana pra lá. Ela deve sentir cheiro de cobra igual eu, e vai odiar. — Revirei os olhos rindo.

— Pô, mãe... tá pior que você e a tia Li então.

— Primeiro que a Liara é minha irmã. Sendo a mãe que dá o exemplo, considero mais a minha irmã do que considero aquela sonsa lá. Mas pergunta pra Olívia pra ver. Podem ir as duas pro escambau. E a mãe exemplar é que tá censurando a Sara aqui, tá? — Ri um pouco. Podia não ser bonito, mas era engraçado.

— O que é que a tia Li fez? Não é possível que foi só porque vocês "brigavam muito". 

— Mas é. E ela fez uma coisa que não dá pra perdoar tem quase vinte anos já, e a gente não fala direito desde então. Mas a gente não vai ficar falando disso agora. Nem dela nem da Neusa. Você é que sabe, quer mesmo ir pra lá? — Acenei com a cabeça — Tirei seu nome do testamento, tá? — Botou a loiça dela na pia e passou por mim — A não ser que você volte pra casa com a notícia que provocou um incêndio naquele lugar lá, mesmo que for sem querer. — Piscou o olho, e abanei a cabeça pra ela — Tô indo pro escritório, a gente se fala depois. — Beijou e apertou a minha bochecha com força e foi a passos de tique-taque de um relógio oco até o seu novo escritório. Em direção contrária, aspirei um sanduíche improvisado de presunto e requeijão e saí de casa.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora