XIII - Rescaldo

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A gente se separou e dei alguns passos para trás. Ela tinha um sorriso fraco estampado no rosto, o olhar oscilando entre mim e o quarto escuro algumas vezes.

— Me desculpe, eu não queria... — Tentei justificar, e ela só abanava a cabeça.

— Não te preocupes, tá tudo bem. E também acho que te devo uns quantos desses, pra ser sincera.

— Você me deve?

— N... sim. É um pouco chato, na verdade, mas pelo menos ficas já a saber. — O sotaque dela é bem português, não me surpreendia se ela fosse de lá. 

— Como assim? — Perguntei num tom acuado, muito mais fraco do que eu gostaria.

— A tua colega de quarto tentou entregar as chaves à Vitória hoje de manhã. — Um calafrio percorreu o meu corpo. A Sandra vai embora? — E tás na merda, se queres que te diga. Ela apresentou uma queixa comportamental e disse que não se lembrava bem do teu nome, mas que ouviu a Sandra a chamar pelo teu nome. Nessa a Vitória fica numa saia justa também...

— Espera, então... não foi a Sandra que tentou entregar as chaves? — Minhas pernas se enfraqueceram de tanto alívio que senti quando ela negou com o indicador e a cabeça — Desculpe, você tava falando sobre a Vitória e a situação bicuda em que deixei ela...? — Franziu o cenho e inclinou a cabeça para trás assim que ouviu a pergunta.

— Ela está completamente passada contigo. Adora-te, mas se lhe chega uma queixa dessas, tem de cumprir o protocolo, né? — Por um momento, duvidei que ela estivesse falando português. Ela arregalou os olhos perante o meu silêncio — Caloiros nunca prestam atenção a nada, meu! Tu foste à reunião com o reitor? — Acenei com a cabeça de forma displicente, queria só que ela acabasse de falar — Então? Okay, imagina... existem queixas comportamentais e queixas comportamentais, certo? Tens o grau mais baixo, que é tipo desorganização e tal, e vai escalando. Pelo que eu soube, incorreste de uma muito grave, que é sobre agressão, destruição de propriedade e essas coisas. Uma grave por si já te rende problemas a sério, mas uma muito grave, dependendo de quem gere, leva diretamente à reitoria. Lá não há muita tolerância com essas coisas, podes ser expulsa. — As palavras dela pareciam chumbo sobre a minha consciência, a visão ficou turva por um instante. Eu... eu não posso ser expulsa.

— Mas... não existe outro jeito de resolver? — Falei hesitante, sem nem reconhecer a voz que saía de dentro de mim.

— Eu não sei como é que isso funciona, e desculpa o timing, mas é graças a ti. Por exemplo, estou toda suja como parte de uma punição, mas não existem registos de queixas em meu nome. Tudo isto para dizer o quê? Primeiro, mil desculpas por te ter envolvido naquele momento, mas eu não te tinha visto lá. Nada disso teria acontecido se eu soubesse. E segundo, mais uma vez, obrigada. Eu juro, qualquer coisa que tu precisares e eu puder ajudar, diz. A sério, Luana. — Deixou a mão sobre o meu ombro e estampou um sorriso fraco antes de se virar para ir embora. Fiquei olhando para ela se afastando, percebendo que... eu não sei nem o nome dela.

— Peraí! Como você...

— Madalena. — Respondeu rodopiando rapidamente sobre os calcanhares e apontando para mim com os dois indicadores. Voltei a fechar a porta, deambulando de um jeito sorumbático para a minha cama.

Deitei de costas e fiquei encarando o teto, tentando perceber como alguém vai de querer ser a melhor estudante de medicina para não saber se vai continuar cursando medicina. Ou vai de garota normal para apaixonadinha. De ter a melhor aliada na faculdade para sei lá o quê. Sentia o meu coração tendo os vasos arrancados lentamente, uma dor aguda que piorava quanto mais eu lembrava do que a Sandra pode ter ouvido. Por que ela não ouviu a conversa inteira?

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora