Bati com a mão na testa com tanta força... só podia. E só podia ter acontecido hoje!
Um engarrafamento numa via tão larga só podia acontecer se duas coisas fossem verdade: um acidente tinha que acontecer, e as pessoas tinham que parar para ver.
E a aglomeração era densa, não parecia disposta a ceder brechas para passagem. Fui penetrando aos poucos, já cansado de tanto sorrir e pedir desculpa por ir contra alguém que claramente está no caminho.
E no momento em que consegui andar à vontade, senti uma dor aguda na minha testa. A moça com quem esbarrei cai de bunda e deixa todas as suas coisas cair.
— Nossa, foi ma...
— Puta que pariu, sempre tem um bitolado das ideia... — Falamos ao mesmo tempo, ela num tom quase imperceptível. Eu já estava estendendo a mão para ajudar, mas hesitei quando ouvi ela direito — Veja onde põe o pé.
— Nossa... se focasse a energia da boca olhando onde põe o pé também... — Murmurei entredentes, mordendo a língua quando vi ela olhando torto pra mim. Estiquei a mão para ajudar ela a se levantar com um sorriso amarelo, tirando as tranças da frente da cara para olhar direito para ela — Desculpa. — Só ignorou, e ficou apanhando as coisas.
— Dá licença... babaca. — Saiu abanando a cabeça. COMO É QUE EU SOU O BABACA?
O que deu nas pessoas hoje?
Respirei fundo antes de abanar a cabeça e afastar esses pensamentos. Falta chegar na universidade, e Sossego ainda fica longe.
Passei por cima da guia da estrada e entrei na primeira curva com uma placa apontando para Alcantara, e a partir daí seguiria por dentro, que era mais ou menos o caminho que eu já conhecia e com os ônibus que eu já tinha apanhado antes. O relógio do celular marcava dez e meia já; até chegar lá e apanhar os ônibus... ainda dá para chegar na faculdade, organizar as coisas e participar da tal cerimónia de boas-vindas que eles pediram para não faltar no email deles. Preciso só de ir rápido.
Comecei a andar mais rápido. Eu tinha uma vaga lembrança das ruas de São Gonçalo, e sentia alguma confiança em seguir o caminho de memória até Alcantara, mas não estava parecendo mais familiar. Nenhum prédio parecia com os que eu via perto dos pontos do ônibus em Alcantara, nem as casas, nem as árvores... nada. Puxei o celular do bolso para ver no mapa, e por algum motivo não pegava rede nenhuma aqui, nem dançando com o celular no céu. E voltar atrás era inútil porque o trânsito estava do jeito que estava.
Soltei um longo suspiro. Sempre tem como piorar, né?
E as ruas estavam vazias; não tinha ninguém para perguntar como chegar em Sossego, tirando um grupo de velhinhos sentados perto dos jardins falando alto e batendo na mesa onde estavam jogando cartas. Fui com alguma esperança, mas recebi só direção confusa; parecia que cada um tinha a sua versão de Sossego. Eles só concordaram com a linha 56. Quando eles começaram a discutir por causa do resto do caminho, só agradeci baixinho e fui embora.
Minhas pernas estavam começando a ficar pesadas, e meu pace caiu. Foi então que finalmente apareceu uma rua mais aberta, urbana e movimentada, com um ponto de ônibus e uma fila de táxis no fim. Remexi todos os bolsos das calças, e encontrei trinta e... seis reais, doze centavos e três papéis secos depois de umas lavagens. Meu ânimo foi junto com a minha energia. Nunca que um táxi de São Gonçalo vai até Sossego só com isso; mais fácil ir pra casa e tentar chegar na universidade outro dia. E isso de certeza não vai acontecer.
Pelo menos dá para perguntar mais, pedir mais indicações de ônibus, caminhos... alguma coisa. Fui em direção do ponto de ônibus, que até estava cheio, então pelo menos alguém aí no meio ia conseguir me ajudar. Um senhor mais idoso ficou no caminho, e quando tentei desviar, esticou o braço para me impedir.
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
