Luana
Um lugar livre para sentar? Ainda mais perto da janela?! Algum santo finalmente pensou em mim hoje. Tudo bem que tinha alguém dormindo no lugar ao lado, mas quem dera todos os meus obstáculos fossem desse tamanho.
Espremi o meu caminho até o banco, tirei minha presilha da cabeça e reclinei a cabeça na janela, soltando o suspiro mais cansado e vocal de sempre. E eu sei que o motorista vai fazer tudo a seu alcance para passar por todos os buracos nessa estrada e fazer esse treco chacoalhar, só para me lembrar que eu devia ter dormido ontem.
Mas aí o celular vibra. Pode ser que esteja só mais letárgica pelo sono, mas ele está fazendo de propósito, vibrando mais que o normal. E eu sei que eu não estou naquela altura do mês, eu sei que eu nunca fui assim.
Olhei para a tela e abanei a cabeça. Claro que essa peste não ia deixar de dar os dois centavos dela para subir no carrossel que as pessoas viram em mim hoje.
— Hum? — Perguntei, sem muito rodeio.
— Quando que você deixa de ser essa cabeça no ar? Esqueceu o pato no tucupi em cima da mesa. — Tentei não transparecer, mas engoli em seco. Como fui esquecer esse negócio?
— Você me ligou só para isso? Não podia ter mandado mensagem?
— Queria ver se você atendia. — Meus olhos reviraram com tanta força que doeu. Tirei os fones, e a figurinha da Sury abanando as mãos foi o que me impediu de desligar a chamada. Inspirei fundo antes de voltar a botar os fones de novo — Tá?
— Repete.
— Toda estressadinha, Lu. Qual foi?
— Cala a sua boca, você sabe o que você fez, sua idiota. — O sorriso animado dela perdeu a cor.
— É só isso que sobrou de você mesmo... Thays, fique à vontade. — Atirou, com o rosto transparecendo uma vontade de cuspir. Que ódio de irmã mais nova...
— Lu? — A Sury nem se despediu... limpei a garganta antes de responder a Thays.
— Oie.
— Lu, queria falar com você. Consegue convencer a tia para não comprar um armário novo? Cara, mó vergonha, não tem necessidade. Eu posso usar o seu, só preciso arrumar aquela bagunça.
— Vem cá, Thay, 'cês duas ligaram pra me ofender?
— É sério, me ajuda aqui, Lu.
— Eu nem gosto de falar desse jeito, mas você já é tipo minha irmã. Se a mamãe quer comprar um armário novo, qual o problema? Você não ia dividir o armário com as minhas roupas sabendo que eu não vou embora para sempre. E vai se acostumando a falar com ela, vocês vão viver juntas, cara.
— E é assim que o seu pai vai me ver como um incômodo.
— Aí você quer que eu ligue para um deles e convencer que não é para eles comprarem o que eles acham que vai deixar você confortável... é isso? — Confirmou com a cabeça, sem qualquer sorriso sarcástico, olhar engraçado... nada — Vocês botaram o cérebro para descansar hoje?
— Acordou com o cu virado para a lua mesmo, hein. — Um calafrio rápido percorreu minha espinha. O que eu estou dizendo?
— Me desculpe, me desculpe, hoje... ahh, mano, não sei. Já mais cedo fui meio grossa com aquele garoto do médio, o Gabriel, eu preciso dormir. Fazer um esforço de sorrir... sei lá.
— Quem?
— O Gabriel. Alto, moreno com tranças, da turma A...
— Ahhh, sim, sim, tô ligada. O que é que você fez, Lu?
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
