— Não, não, não, não... — Saltei da cama e vasculhei o chão por mais pedacinhos roxos ajoelhada. A troncha lá, que parecia nem ter notado o que fez, virou para mim com um olhar desinteressado.
— Você perdeu alguma coisa? — Perguntou puxando o fone dela de uma das orelhas.
— Você partiu esse negócio. Essa não... — Resmunguei, passando os dedos pelo meu cabelo de olhos fechados. Isso tem que ser mentira.
— Eu? — Perguntou com um tom de voz agudo, como se não fizesse ideia. É como se ela estivesse me chamando de burra.
— Não, minha vó. Claro que é você, porra, foi você que caiu aqui e bateu nesse negócio. — Dei um tapa na mesinha de canto.
— Bati não, eu caí aqui do lado da sua cama. — Levantei devagar, olhando no fundo dos olhos dela.
— Que ideia a minha! Não foi você não, foi seu corpo imenso caindo. Larga de ser uma capivara, eu vi uma das partes da presilha caindo da sua bunda! — Gritei, sentindo a garganta queimando de raiva.
— Ou, ou, oie! O que é que tá rolando? — Ouvi a voz da Sandra atrás de mim.
— Peraí, eu percebi direito? — Começou Emily — V-você tá puta por causa de uma presilha? Eu compro outro, se for preciso. — Meu punho cerrou com tanta força que minhas unhas fincavam na minha própria mão, só para eu continuar sentindo algo que não fosse a adrenalina correndo pelo meu corpo.
— Essa "presilha" que você...
— Ah, véi, eu já disse que eu vou pagar, então pode parar com essa confusão! — Me cortou revirando os olhos. Eu ainda estou dormindo, não é possível — Uma mulher dessas chorando por causa de um objeto igual qualquer outro, sinceramente.
— Qual foi também, Emily? Você partiu um negócio importante para ela e tá querendo cagar regra de como ela vai se sentir. — Chegou Sandra do meu lado. Ela inspirou profundamente antes de responder.
— Tá, mas não precisa reagir do jeito que essa daí reagiu também. Eu não quis partir o negócio, foi sem maldade que eu caí, eu já disse que posso comprar. Tanto drama por quê? — Senti as lágrimas escorrendo do meu rosto de tanta raiva que eu estava sentindo, todas as coisas que eu queria dizer morriam no aperto que estava sentindo na garganta. Meu corpo estava imóvel, com um olhar fixo naquela idiota.
— E você ainda quer armar confusão em vez de admitir seu erro. — Insistiu Sandra.
— Mas é só uma presilha, porra! Um grampo! Não é por isso que ela vai ser grossa do jeito que quiser. Mas se faz alguma diferença, me desculpa pelo seu ganchinho, tá bom? Aí quando a encomenda de outra presilha chegar aqui na recepção do prédio, espero que você supere esse ódio. — Minha mão disparou, e agarrei o cabelo dela num impulso. Puxei para baixo com tanta força que senti um estirão no ombro. Os fones dela se enroscaram no meu pulso e no cabelo dela, ficando assim pendendo — Tá maluca?! Me solta!
— Lu! — Gritou Sandra. Emily bateu várias vezes no meu braço, fazendo com que eu soltasse o cabelo, mas também fazendo com que os fones dela caíssem, separados exatamente no meio. Ela estava agora no chão, pegando nos fones enquanto tocava "Boogie Wonderland".
— Olha o que você fez! — Fiz questão de engolir tudo que estava sentindo naquele instante só para responder do jeito que ela merece.
— Quem... eu? — Usei o tom sonso dela fuzilando a testa dela com o olhar. Ela bufou alguma coisa, pegou nos pedaços dos fones e saiu.
— Cara, o que deu em você? — Perguntou Sandra me empurrando pelo ombro.
— Mas tá do lado de quem você, hein? Aquela idiota partiu a minha presilha. Ficou barato eu não ter partido a cara dela de volta!
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Olho de Âmbar
RomanceO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
