VIII - Dúvida

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Luana

— Jura que você não tá puta comigo. — Revirei os olhos e larguei o meu lápis. Por que ela tá tão fissurada nisso?

— Porra, Sandra, pela décima vez, eu não tô chateada. Agora deixa eu ler essa revista, por favor.

— Você só não parecia exatamente contente quando eu ofereci para ser parceira dele. Pô, qual a probabilidade de eu pedir para você me apresentar o seu amigo e afinal eu conhecer ele? Pior: qual a probabilidade da gente fazer parte do mesmo grupo para anatomia?

— Só lembrando as condições em que vocês se conheceram, era bom não ter esperanças elevadas. — Respondi com o lápis na boca.

— Mas é aí que você entra na equação... vocês se conhecem, aí você suavizava tudo. Pode fazer parte do nosso grupo. — Neguei violentamente com a cabeça.

— Vem cá, Sandra, você não vai estudar esse negócio dos fenómenos bioquímicos? Só o compêndio mais as revistas e os artigos estão somando umas duzentas páginas para a revisão teórica que a gente vai ter amanhã. — Pedi, querendo mudar de assunto o quanto antes.

— Claro que vou, mas isso é a parte fácil. Prefiro perder tempo no ciclo de Krebs e nas etapas, que deve ser o que ele vai perguntar. — Disse rodopiando pelo quarto, pegando os seus cadernos vazios —Sua chata. O que você tá vendo?

— O meu futuro só, mais nada. — Disse, acabando o exercício proposto pelo livro. Corrigi a postura da coluna, ouvindo a crocância do meu corpo por cada vez que esticava o meu corpo para um ou outro lado tentando sentar de um jeito mais confortável — Dá para descansar um pouco, finalmente.

Voltei a ligar o celular, agora que estava podendo me distrair, e encontrei duas chamadas perdidas do meu pai. Liguei de volta, e fui atendida na hora.

Olha, lembrou de quem deu o sobrenome dela.

— Não é bem assim, pai... o curso é mais intenso do que eu tava esperando.

E o que você tá achando? Como você tá? — Perguntou com uma voz tão doce que me fez até encolher o meu corpo.

— Eu tô bem, sabe? O ambiente é novo, os colegas são quase novos, o conteúdo é bem extenso... mas está tudo bem.

E como tá sendo a residência?

— Muito massa, conheci uma garota muito bacana, o nome dela é Vitória. Conheci também a Sandra aqui.

— Ei! — Gritou a própria Sandra, rindo comigo antes de voltar à sua concentração para estudar.

Manda saudações para ela.

— Ela tá ouvindo você — Acabamos rindo juntas de novo. Ela olhou para mim e confirmou com a cabeça — Mandou outras para você.

Fico muito contente de saber que você tá gostando do desafio, e que tá batendo de frente com a adversidade. Lembra que eu, sua mãe e suas irmãs estamos aqui torcendo por você, mesmo que não consiga, tá? A gente tem muito orgulho em você. — O sorriso se desfez do meu rosto. Não conseguir é uma opção por quê?

— Mesmo que não consiga... nova técnica de psicologia reversa? — Respondi de um jeito mais ríspido.

Não foi isso que eu quis dizer, Lu... — Disse gemendo.

— Mesmo que fosse, Will... — Interrompi, focando no nome dele — ... não se preocupe com isso. Eu sei o que você e a mamãe acham que vai acontecer, e tá tudo bem.

Florzinha, não tem nada a ver, a gente só se preocupa com o seu bem-estar. A Thays na formação que tá tendo lá no trabalho é a mesma coisa, com a Sury vai ser a mesma coisa... — Suspirei, lutando contra uma vontade quase incontrolável de revirar os meus olhos.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora