O quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar?
Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado.
Lu...
O sono não rendeu de grande coisa. Depois de mais ou menos uma hora, estava acordado, tentando adivinhar para onde iam os traços que eu podia jurar que estava vendo no teto.
Um clarão repentino invadiu o quarto pela porta, e tudo que vi foi a alguém entrar com um objeto farfalhando. Liguei o abajur do meu lado para ver quem era, e Denilson saltou para trás, deixando cair o buquê que tinha nas mãos e dando um grito agudo demais para o meu gosto.
— Qual foi, caralho?! — Gritou sussurrando, botando a mão no peito em seguida.
— Qual foi pergunto eu, como que você entra de fininho no seu próprio quarto?
— Qual foi pergunto eu, por que você tá controlando quem entra de fininho no próprio quarto? — Abaixou para pegar as flores laranja, branca e rosa e atirar para a própria cama.
— Eu tava dormindo, você me acordou. — Respondi. Ele balançou a cabeça decepcionado antes de ir para o banheiro — Buquê maneiro esse daí. — Soltei.
— Shhh! Babacas. — Reclamou a Viviane, virando o corpo noutra direção violentamente.
— Cê acha? — Começou Denilson sussurrando enquanto saía do banheiro, olhando de vez em quando na direção da Viviane como se esperasse alguma reação — É maneiro, né? — Acenei com a cabeça — Então, uma dica de ouro para você é estudar um pouco esse negócio do significado das flores. A mina que você gosta pode até nem entender nada, mas ela de certeza conhece alguém que entende. Pontos para você. — Tirou a camiseta e atirou do mesmo jeito para a cama e foi para o banheiro de novo, escovando os dentes — Ainda não tá dormindo por quê? São quatro da manhã.
— Nada não... tem vezes que meu sono só desaparece assim, do nada. Mas tá tudo bem. — Respondi baixinho, quase falando sozinho. Ele surgiu do banheiro já com um pijama. Ficou olhando por algum tempo para mim, se aproximando devagarinho — Quê que foi?
— Eu sei que quando a pessoa tem sono meio que fica com algum tipo de alucinação, mas eu tô... eu tô vendo seus olhos de cores diferentes, cara. — Bati a mão na cara. Esqueci que tirei as lentes — Um meio cinza, o outro assim tipo dourado. Tá usando lentes de contacto?
— Eu fico assim sem as lentes de contacto. — O queixo dele caiu.
— Agora o quê, vai me falar que é um dragão e consegue voar? Viviane... Vi... — Impedi ele de continuar chamando por ela.
— Faz isso não. Por alguma razão eu uso lentes que deixam meus olhos normais, né. Não gosto muito disso de...
— Tá tirando, imagina ter um olho para cada mina que me vê na rua? Era só... — Interrompeu, mas só fulminei com o olhar — Foi mal, foi mal. Não tava sabendo isso não... — Torceu os lábios e abanou lentamente a cabeça de baixo pra cima e ergueu o mindinho e dedão para mim— Enfim... bom dia, Gabriel. Apague o abajur pra mim. — Apertei no botão e toda a luz se foi. E eu? Só continuei sentado, olhando para os traços escuros imaginários e deixando as perguntas sobre mamãe se empilharem.
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