Precipitação (interlúdio)

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A nuvem cinza carregava tudo que estava retido debaixo da pele cada vez que saía dele, e ficava ainda mais acumulado por baixo da pele. Os lábios junto do cigarro tremiam, e não dava para culpar assim tanto os sopros frescos que empurravam as nuvens e as roupas escuras para longe, desestabilizando de leve a sua postura com o pé apoiado na parede. 

A mudança tem que acontecer o quanto antes. Não dá para continuar desse jeito. 

Talvez a parede não fosse o melhor lugar para lidar com todo aquele peso. Impulsionou para frente e começou a caminhar, de olhar baixo e contemplativo. A realidade parecia firme sob os seus pés, e mesmo assim, a cada passo que ele dava ela partia e revelava um nível abaixo que parecia ainda menos firme. As coisas estavam reais demais. Se for um sonho, melhor acabar agora. E os bafos ajudavam cada vez menos. Pegou no cigarro mal acabado e atirou para longe, desocupando as mãos para limpar o rosto. 

Nenhum gesto pacificador parecia funcionar. Puxou a caixa de maços do bolso para pegar um novo cigarro e deixar a nicotina trabalhar. O estalido do isqueiro a ser aberto coincidiu com o som de uma porta do lado esquerdo dele a fechar. A silhueta da mulher de cabelos escuros e dispersos se aproximava em passos mais ou menos largos, e só de reconhecer a inclinação do corpo com os passos a sua postura se corrigiu. 

— Eu não vim discutir. — Disse ela com uma voz serena e embargada simultaneamente — Mas não pense em momento nenhum que eu não...

— Chega. — Seu tom saiu perentório, mas alguma coisa indicava que ele já não estava a conseguir acumular ainda mais coisas para as nuvens levarem — Isso é uma loucura. 

— É? Jura? O que é que entregou? Ouvir alguém gritar desesperada para a sua secretariazinha? Ou descobrir que só você podia ter o mesmo sangue que ele? Agora ele já parece mais seu fi...

— Cala a boca, Olívia! — Espremeu o pedido com a voz totalmente embargada, como na iminência de um choro. O rosto dela recuou instintivamente, surpresa pelo que estava diante dos seus olhos. Escassas foras as vezes que viu Christian assim.  

— Tape seus ouvidos se quiser. — A única coisa a interromper a sua serenidade eram os seus movimentos corporais, as mãos lentas a alcançar os bolsos e resgatar um maço, de onde puxaria um cigarro para chamar de seu e acender — Tudo aconteceu depois de eu ter deixado ele, e ninguém sabia onde ele ia estar porque o regresso dele não foi planejado. Só consigo pensar que alguém me seguiu. E pode crer que isso, e tudo que isso implicar, vão fazer parte do meu depoimento. — Ao contrário dele, o tom dela era cada vez mais firme, determinado, agressivo. Parecia que a nicotina nela tinha o efeito contrário — Se meu sangue for arrancado de mim de novo, Douglas, pode crer que...

— Você tá se ouvindo?! — O seu movimento foi brusco. Virou o corpo na direção dela e segurou os seus ombros com firmeza, abanando ligeiramente. Ela se mantinha impassiva, puxando tranquilamente mais um trago do seu cigarro e expelindo para o lado. Ele não tem nada sob controle. Ele nunca ficou assim tão agitado... ele está... com medo? — Você soa como uma doida, como que eu ia fazer alguma coisa com ele?!

— Primeiro você me solta, e jamais pegue em mim desse jeito. A gente se conhece há tempo suficiente para saber que isso não vai intimidar ninguém aqui. — Suas mãos trêmulas soltaram os ombros dela lentamente — Segundo, desde quando você se importa com ele? Se ele não merecia nem que você atendesse as chamadas dele. 

— Quem foi que falou para você que...

— Por amor de Deus, porra! — Riu exasperando o fumo pelas narinas, as suas mãos batiam violentamente contra as coxas — Ó, eu vou dizer o óbvio, mas tem quem esqueça: lembre que você me conhece. Não vai estranhar nada do que eu fizer daqui pra frente se alguma coisa acontecer com ele. — Empurrou-o pelo peito. Apagou o cigarro a centímetros da cabeça dele e deixou a beata cair por cima do seu ombro. Dirigiu um último olhar, tanto de determinação como de tristeza, antes de seguir o seu caminho.  

Nada nunca importou mais do que ele.

Uma lágrima se disfarçava entre as gotas de chuva que apagavam a ponta quente do cigarro e provocavam fumos fracos. E dessa vez, não sobrou nada que a nuvem cinza não tivesse carregado para o vento. 

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora