XLI - Morfina

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Fiquei olhando para elas conversando animadamente entre elas, rindo alto e gesticulando de um jeito animado.

Sandra em especial parecia tão descontraída, tão... feliz. Conversando com leveza. Parecia... tão...

— Moço, onde que você tem a cabeça? A gente tá chamando você mó tempão. — Ela veio me chacoalhar o ombro. Olhei para o rosto levemente preocupado dela com atenção... como que eu nunca vi nada na Sandra? — Gabriel? Você tá bem?

— Eu tô... — Olhei em volta, depois pisquei e voltei para a mesa, onde as outras duas estavam rindo de mim — ... eu tô legal. Me desculpe, tava aqui distraído. — Pedi limpando a cara.

— Cara, viu algum fantasma? — Perguntou rindo. Puxou minha mão, e alguma coisa no toque dela parecia surreal. Deixei que me guiasse até elas — Lu, dê um jeito no seu homem.

— O que é que ele tem? — Perguntou Luana dando um último gole no refri dela — Amor, tá tudo certo? Como foi lá com o seu pai?

— Foi... bom, foi bom.

— Porra, a Sandra tinha razão, estás um pouco pálido... ou é impressão minha? — Disse a Madalena antes de se aproximar um pouco do rosto.

— Gabriel? — Luana chamou, mas estava absorto demais para reagir.

— Preciso ir lavar a cara. Já venho, peraí... — Voei até o banheiro. Fiquei lá lavando a cara alguns minutos, esfregando com força nos olhos. O meu rosto no espelho parecia pertencer a outra pessoa. Respirei fundo e abri as portas lentamente, encontrando Luana do lado de fora.

— Gabi, o que é que tá rolando? Você tá muito esquisito. — Puxei ela para dentro do banheiro, no espaço onde os dois sexos lavam as mãos e usam o espelho — Ai!

— Lu, me escuta. — Sussurrei, e peguei nas mãos dela tremendo ainda... os olhos dela estavam perdidos no meu, mas eu sentia que estava mais perdido — E-eu... sei nem por onde começar. Você lembra da briga que eu tive com a minha mãe? Que foi porque eu tinha entrado no escritório dela?

— O que é que tem? Piorou? Brigaram de novo? — Neguei com a cabeça.

— Não é isso... eu tinha logado na conta do e-mail dela no meu celular porque estava tentando encontrar a pessoa que enviou aquele fax, mas...

— Gabi, deixa eu interromper você.

— Não, não, peraí... você não tá entendendo...

— Eu acho que você é que não tá entendendo, Gabriel. Você não tá percebendo o que você tá fazendo, de novo? — Soltou as minhas mãos e se afastou — Você tá com a conta da sua mãe no celular. Acha que ela vai ficar feliz quando descobrir? Cara...

— Não é isso! O que eu descobri muda tudo!

— Será que muda? Gabriel, você pensou exatamente a mesma coisa da última vez, e veja o que deu. Aquilo não significou nada pra você?

— Significou.

— Então! Você prometeu largar dessa obsessão. Isso só fez mal pra você, cara! Sussurrou quase gritando, me despertando um pouco do transe que estava vivendo. Obsessão?

— Obsessão? Pela verdade?

— Não... tá, vamos fazer assim. O que você vai fazer quando souber a verdade? Vai mudar o quê? — Seus olhos pareciam ligeiramente cansados.

— Como assim "vai mudar o quê"? Você não gostaria de saber a verdade se soubesse que estivesse presa por farsas? Prefere ficar sem saber?

— Quer saber? Não! — Franzi o cenho ao ouvir aquilo dela — Vale a pena se vai destruir tudo que eu tenho? — Dei de ombros*. Então não tem por quê a gente discutir sobre isso.*

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora