— O dono do restaurante perdeu a melhor oportunidade de marketing da vida dele. — Gabriel me despertou do meu transe, falando com uma mão tapando a boca cheia e com os olhos arregalados — Você tinha que ter visto a sua cara. — Parecia que as chamas do restaurante estavam na minha cara, sentia o rosto queimando.
— É que isso tá gostoso demais. Alguma dessas carnes foi preparada em redução de vinho, não foi? Os sucos se misturaram de um jeito louco, até agora sinto as texturas nas papilas. — Suspirei.
— Caraca... você é algum tipo de chef? — Perguntou entre os tilintares dos talheres. Uma versão bem reduzida da história das aulas de culinária estava na ponta da língua, a segundos de servir de resposta, mas na última hora hesitei.
— É, manjo um pouco. — Menti evitando olhar nos olhos dele. Eu estou me divertindo, não vou estragar isso agora — Aliás, me leve ao chef quando a gente acabar, por favor. Se isso não trouxer problema para você, claro.
— Pode deixar. — Procurei rapidamente o celular na bolsa para ver quanto tempo mais eu ia poder ficar aqui comendo, mas sempre fitando a travessa. Parecia ter pegado no saquinho do gancho, mas quando olhei, era só o celular indicando oito da noite.
Precisei fazer um esforço enorme para não perder a compostura enquanto comia. Garfada depois de garfada, me sentia pior só de saber que aquela comida em algum momento acabaria. Quando pousei os talheres, reclinei para trás, sentindo a barriga pedindo por mais espaço. Lutei para minimizar o arroto que urgia de dentro de mim com a mão à frente da boca.
— Me desculpe. — Disse mesmo assim.
— Ainda bem que você gostou desse, quer dizer que vai adorar os outros que se prepara aqui.
— Acho que já entendi o porquê de você trabalhar aqui. — Ele se desmanchou em gargalhadas. Ouvir a risada dele me fazia sentir bem, mais leve, mais à vontade.
— E agora tô vendo que você faria o mesmo.
— Num piscar de olhos. Tá brincando? — Riu um pouco — Mas hum... sei não. Você tem matemáticas mirabolantes mais uma parte pesada de medicina. Como que trabalhar aqui não atrapalha você?
— Atrapalha. Claro que atrapalha. Só que você não come de graça.
— Ué, e os seus pais? Eles não ajudam você?
— Eu não sei deles. — Franzi o cenho.
— Como assim?
— Eu não sei deles, Luana. Eles desapareceram do meu radar.
— O que você tá fazendo aqui, cara? Já foi pra polícia, voltou para casa... alguma coisa?
— Uma coisa de cada vez. Primeiro: eles só estão desaparecidos para mim, não quer dizer que estejam realmente desaparecidos. Não adianta precipitar uma decisão por medo da minha parte. Mais minha mãe, porque meu pai... enfim, não importa. Segundo: eu consigo me virar até ter condições de verificar a situação. Só é chato porque tudo acontece meio que do nada.
— Mais a faculdade. — Deu de ombros olhando por algum momento para o fogo, em silêncio — Sinto muito. — Disse para ele, que manteve uma expressão neutra antes de esboçar um singelo sorriso.
— Existem coisas piores. Mas enfim... o que... — Inclinou o tronco para frente, embaixo da mesa, saindo de lá com um saquinho de plástico, igualzinho ao que eu tenho na mala. Abri a minha e procurei pelo ganchinho no mesmo instante, não encontrando nada. Abriu a mão a ritmo de camaleão mesa franzindo o cenho — O que é isso? Me desculpe, devia ter levado para o lixo de imediato. — Puxei o saco da mão dele tão rápido que provavelmente o assustou.
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Olho de Âmbar
RomantikO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
