XXI - Vulnerável

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Depois de almoçar, fui deitar no sofá, com dor de barriga pelo exagero na dose. Quanto mais acariciava a barriga, mais meus olhos se rendiam à preguiça. Na iminência de adormecer de novo, meu celular vibrando no bolso me puxou de volta para a realidade.

Obrigada por lembrar que eu afinal me preocupo demais com as pessoas. — Bati com a mão na cabeça imediatamente depois de ouvir a voz da Luana.

— Nossa, me desculpe. Eu juro que era pra ter ligado antes.

I jiri qui iri pri filir intis. Já ouviu falar de mensagens? Invenção bacana, cara, são rápidas e fáceis de usar.

— Me desculpe, meu bem.

Eu vou pensar no seu caso. Me dê a sua boa razão pra não ter ligado antes.

— Ah, é que... não, já vou contar. Como que você tá?

Ah, bem, né. Sequência de um mês e meio sem sanção, a gente vai selar um ano inteiro daqui a pouco, hein.

— É esse o espírito!

Você... você tá me zoando, né? — Caímos os dois na gargalhada — Fora de brincadeira, como que você tá? Não era pra você estar aqui?

— Era, mas aconteceu um negócio que me deixou pensando se valia a pena voltar.

Claro que vale, seu bobo. Vai encontrar a sua amada outra vez.

— Não é isso...

— O quê? Seus pais estão bem?

— É justamente isso, Lu. Eles estão se divorciando.

Pô, cara... sinto muito. Como você tá? — Seu tom fino e vivo se desmanchou enquanto pronunciava cada palavra.

— Só tô meio preocupado por causa da minha mãe, que não tá tendo vida fácil.

Tipo?

— Tipo lidar com marmanjo invadindo a casa e querendo levar tudo que tiver em nome do meu pai. O próprio apareceu também... tá caótico.

Putz... e agora? Como que o seu pai faz um negócio desses? — Dei de ombros, como se ela pudesse ver.

— Não sei, acho que... sei lá, cara. Cancelo o alojamento e passo a dormir aqui em casa, talvez?

Pera, pera... como é?

— Sim, Lu.

— Quando foi que a gente inverteu os papéis e você toma as decisões drásticas do nada?

— Alguém precisa ser o homem da situação, né?

— O que isso tem a ver com a sua estadia aqui? — Fiquei em silêncio engasgado com as palavras — Cara, eu entendo que a situação que vocês estão passando não é a melhor, mas é preciso ter calma. Agora não é só "você" indo embora, sou eu ficando sem você do meu lado também. — A voz dela soou embargada, como se custasse dizer isso.

— Eu sei, eu sei... — Inspirei fundo e soltei um suspiro longo — Eu só tô preocupado. Não tem condição de sair daqui com esse caos todo.

Tô ligada. Qualquer coisa, fala comigo, tá? Eu preciso sair agora, prometi ajudar a Sandra com um negócio. Muita força para a sua mãe. Beijos.

— Beijos, te amo. — Mordi a língua. Por que eu disse isso? Depois de segundos silenciosos, a chamada desligou, e fiquei com um sabor amargo preso na garganta. Antes que as perguntas começassem, olhei em volta e vi mamãe dando um passo em falso da porta da cozinha para dentro.

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora