— E... acabei. — Suspirou Sandra, se deitando sobre a cama de braços abertos.
— Já? — Perguntei com um falsete, ao que ela acenou com a cabeça, se deitando de lado, de frente para mim — Como que você estuda tão rápido?
— Ahh, Lu, sei lá... esses conceitos de biologia fazem muito sentido na minha cabeça. — Fingi um bocejo, batendo com a mão na boca.
— Odeio pessoas extremamente inteligentes. Vossa explicação é sempre a mesma: não, Lu, "isso na minha cabeça faz sentido". Ah não, Lu, "é uma coisa fácil de se fazer". Mas Lu, "se você se concentrar, você consegue". Tomar. No. Cu. — Sandra soltou uma sonora gargalhada, e ficou se desfazendo entre risos. Nunca vi ela rir desse jeito — E você tá rindo?
— Você age como se fosse uma burrinha, e você quase gabaritou uma revisão teórica "a queima-roupa" hoje. — Disse pegando no celular — Uma mulher curiosa, você.
— Nem vem. — Suspirei as palavras cansada, com a voz mais oscilante de saber que ainda não podia descansar sem tentar entender direito essa matéria. Olhei para a mala, e a superstição conseguiu o melhor de mim. Fui lá e peguei a presilha roxa e botei no cabelo — Eu acho que eu tô longe de ser burra, mas a vida com a sua capacidade era um arco-íris. — Deu uma risadinha — É verdade, eu provavelmente estudava a partir de casa, e vinha aqui só fazer teste. Ou nem isso, fazia só...
— Também acho. — Virei na direção dela estranhando o timing da resposta dela. Só faltava poder ser sugada para dentro do celular do tanto que estava vidrada nele.
— E não ouviu nada que eu falei. — Reclamei — Me deixe adivinhar... estava conversando com o Gabriel sobre o vosso trabalhinho de Anatomia.
— Que trabalhinho? O cara fez mais de metade já, e eu que tô em medicina. E só sobe. — Ué, pensei que ele odiasse essas matérias... — Parece até que... — Resfolegou rapidamente, com os olhos abertos como pires sobre mim dessa vez — É agora que você me conta do porquê de esconder tanto essa presilha?
— Quê, esse roxo? Ah, sei lá, pergunta lá para o seu Gabriel, já que tá querendo olhar mais para ele do que me ouvir.
— Não é isso, é o trabalho... me desculpe. — Lamuriou, saindo da cama e abrindo os braços na minha direção. Sempre que tentava se aproximar, eu empurrava com os pés — Me conta, por favor.
— Não quero. Você não merece. — Disse fazendo beicinho.
— Por favor, eu imploro... — Juntou as mãos e começou a se ajoelhar, me fazendo mais uma vez revirar os olhos.
— Tá... — Bateu palmas e se sentou do meu lado, cruzando as pernas. Suspirei cansada.
— A minha irmã mais nova, a Sury, tenho certeza que você já me ouviu falar nela. — Acenou com a cabeça — Então, ela tinha organizado uma festa surpresa para mim nos meus quinze anos, e foi numa época muito chata tanto para mim como para os meus pais, que tinham sido despedidos e não estavam conseguindo trabalho, então a gente tava passando um perrengue pequeno. Eu enchi o saco dos meus pais porque achei essa presilha linda por muito tempo, e era a minha cor favorita, mas eles sempre davam uma volta. Dias antes do meu aniversário, ela vendeu o próprio celular, um que ela tinha chorado para meus pais comprarem, do mesmo jeito que eu. Daquele dia em diante, é meio difícil pra mim ver outra pessoa pegando nele, meio que não é só mais um acessório, sabe? É tipo...
— Sua família representada no objeto.
— Eu ia falar "amuleto", mas você acertou mais que eu. — Soltou uma risada leve, olhando para mim de um jeito intenso depois.
— E você gosta pra caramba das suas irmãs.
— É. Teoricamente, a outra que eu falo não tem vínculo de sangue comigo, mas a gente sempre agiu como se ela fosse. Mas essa mais nova... é a coisa mais importante que eu tenho. As duas são, mas pela mais nova... é daquelas pessoas por quem a gente fala a famosa "faço besteira"... — Sentia a palpitação na boca a medida que os cenários me apareciam pela mente, todos com uma decisão fatal que eu nunca me arrependeria — ... não gosto nem de pensar muito nesse negócio, me desculpe. — Ri seco, desviando do olhar dela.
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Olho de Âmbar
عاطفيّةO quanto do que somos nasceu das nossas escolhas? E quanto nasceu das feridas que aprendemos a carregar? Gabriel aprendeu a conviver com o vazio deixado por alguém que perdeu cedo demais, e com a sensação de que parte dele ficou presa ao passado. Lu...
