XV - Sísifo (1/2)

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Preciso de um banho, e para ontem

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Preciso de um banho, e para ontem.

Pela centésima vez, olhei para o meu celular para confirmar os mesmos caracteres que ele já tinha enviado na mensagem hoje mais cedo. "Dezessete na entrada". Faltam quinze minutos, e eu ainda estou aqui com o suor das aulas de hoje e uma montanha de roupa emergindo da mala.

No banheiro, o banho até foi rápido, mas aí entrava fácil num loop sem fim entre o quarto e o espelho, sempre encontrando uma nova pergunta para tirar ou botar alguma coisa: será que botei creme suficiente no rosto? Cabelo preso em coque ou solto? Com ou sem mecha? E o ritmo cardíaco só aumentava a cada decisão.

Cara... isso é loucura.

E são dezessete horas em ponto.

Hora de acelerar. Dos três vestidos brancos que tinha estendidos na cama, puxei o do meio, que só lembrei que era aberto nas costas quando não senti tecido nenhum. Botei os tênis de hoje mesmo e a minha mala, com os cadernos todos em cima da roupa. Enquanto dava um jeito rápido para disfarçar a confusão para as meninas, a mão acabou passando pelo saco de plástico onde deixei o gancho. Hesitando, peguei nele e botei na mala, só para o caso. Acabei de ajeitar minimamente as coisas que estava deixando meio dispersas e disparei para fora do quarto e do prédio.

— Nossa. — Ouvi a voz da Vitória, me fazendo parar de andar. Virei para trás e estava ela com a mesma máscara que ontem, mas com um pijama de frio cinza e bordô. Olhou para mim de cima para baixo meneando a cabeça — Vai desfilar no seu dia de descanso? — A palpitação ficou mais forte.

— Peraí... esse vestido é demais? Porra, eu sabia que...

— Demais ele é, sem dúvida. Lindo demais. — Me interrompeu com um olhar oscilando entre os ombros e os joelhos — Para onde você vai? É a primeira vez que vi você desse jeito.

— Assim... — Olhei em volta antes de me aproximar e falar — ... tô indo no centro urbano. Com um cara.

— Luana Roberto! Como que você afinal tinha um cara em mente e não fiquei sabendo? — Botei o dedo nos lábios para ela falar baixo — Desde quando tá esse fuzuê todo?

— Para, cara. Já foi... — Suspirei antes de continuar — Já foi mais tempo que eu gostava de admitir. Não tem jeito de eu contar agora porque eu tô toda atrasada, meu Deus, preciso meter o pé.

— Depois não vai falar que eu sou uma supervisora ruim. — Veio ter comigo na porta e andou comigo até ao lado de fora — Não dê a volta até chegar nesses departamentos do centro lá. Desce essa rua e vai descendo sempre, onde você vir que tá descendo mais. Vai chegar lá num instantinho. — Disse apontando para a estrada à direita da que vai levar para a arena — Em troca, senhorita, eu quero ouvir essa história direito. — Acenei com a cabeça e abracei ela de lado, botando logo as pernas para trabalhar.

Só passaram vinte minutos. Vai que ele não está esperando há tanto tempo assim.

Os prédios estavam ficando para trás, dando lugar a edifícios menores que pareciam mercearias locais com produtos da terra nas bancadas de ambos lados da rua. Os edifícios foram crescendo, rivalizando com os postes de iluminação, mas variando em largura e sofisticação. Quanto mais andava naquela direção, mais se parecia a um complexo, uma avenida com comércios de média a alta renda. Do meu lado da calçada estava uma placa de boas-vindas ao "Centro Urbano". Como que nunca tinha ouvido falar desse lugar ainda?

Olho de ÂmbarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora