vinte e sete: presságio

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Min Yoongi estava quase dormindo quando sentiu o celular vibrar ao seu lado, jogado sobre o colchão. Ele respirou fundo e tentou ignorar a notificação, mas agora estava acordado de vez, o sono completamente destruído por aquele som rápido e baixo somado à vibração que o tinha assustado.

Ao puxar o aparelho para perto e verificar as mensagens, para sua surpresa, Jeon Jeongguk entrava em contato depois de muitos dias sem nenhum tipo de notícia. A última vez que o vira fora quando o violoncelista o procurara para saber a respeito do passado de Kim Taehyung, confessando que estava se apaixonando por ele. Jeongguk havia lhe implorado para saber a verdade envolvendo a prisão de Taehyung e sua ligação com Jeon Jihyun, e desde então, sumira.

Yoongi leu a mensagem diversas vezes, pensando se ainda estava dormindo. Talvez não fosse a realidade. Podia ser que estivesse fantasiando e delirando na camada mais profunda de seus sonhos.

"Olá, Yoongi-ssi. Como você está? Ainda querendo um violoncelista para uma parceria em alguma música incrível sua?"

O rapper bloqueou a tela e encarou o teto. A parca claridade que vinha de fora pintava o teto em manchas pouco nítidas. Se ele as olhasse por tempo suficiente, elas se tornariam grandes focos de luz capazes de cegá-lo, como se adentrasse as portas do céu... ou como se passasse pelo corredor da família Kim e se perdesse na visão clandestina do quarto de Lisa, quando se dera conta, pela primeira vez, de que estava apaixonado por ela.

Fora a cena mais simples que poderia ver, não havia nada de especial. Lisa ainda trajava o uniforme do colégio e o cabelo estava meio bagunçado porque havia acabado de arrancar os lacinhos que o prendiam. Ela estava apenas parada em frente à janela, olhando para alguma coisa e sorrindo sozinha.

Ele sentiu o coração acelerar e deu um passo atrás, completamente assustado, mas antes que pudesse sair sem ser visto, ela se virou.

Oppa — seu rosto se iluminou ao vê-lo, os olhos brilhando.

Yoongi não respondeu, mas Lisa fez um gesto para que ele fosse até ela.

— Olha — sussurrou quando ele chegou perto da janela. — Aquele passarinho está fazendo um ninho.

Eles observaram o pássaro por algum tempo, vendo-o encher um cantinho do galho com mato seco e alguns gravetos bem finos.

Oppa... por que você não pode... — Lisa tocou sua mão com a ponta dos dedos, de leve, e ele se afastou rapidamente. Sabia o que ela queria dizer pela milésima vez, mas não queria ouvir sua insistência. Irritado, retirou-se do quarto em silêncio, deixando-a para trás, sozinha.

Lisa ficou parada no mesmo lugar, sem segui-lo ou dizer qualquer coisa. Ele não soube qual foi sua expressão ao vê-lo se distanciar, pois não olhou para trás. Yoongi não falou com ela no dia seguinte, quando Lisa lhe enviou uma mensagem pedindo desculpas por ser tão irritante e insistente.

"Quero que você seja feliz, mesmo que não seja comigo. Prometo que vou te respeitar e parar de te encher o saco." Tinha sido sua última mensagem.

Quase uma semana depois, em meio ao silêncio frio de Yoongi, Taehyung a matou.

O rapper se virou na cama. Suas noites preferidas eram aquelas em que Lisa vinha visitá-lo. Ela estava mais velha, como ele imaginava que ela fosse ficar quando se tornasse adulta, e ele finalmente dizia que a amava. Então Lisa ria e segurava sua mão. "Eu sei, oppa, sempre soube!", respondia, fazendo-o rir com tamanha petulância. E, de vez em quando, ela emendava, perguntando-lhe: "se você tivesse me dito isso antes... será que podia ter me salvado?".

— Não — ele deixou escapar em voz alta e imediatamente escondeu o rosto entre as mãos, frustrado. Mesmo que tivesse se declarado naquele dia, em seu quarto, ou nos dias que antecederam sua morte, nada teria mudado. Lisa teria continuado uma irmã preocupada e tola, correndo atrás de Taehyung sem saber que corria em direção à sua própria morte. Quantos anos já não haviam se passado, mas Yoongi continuava incapaz de seguir em frente? Não conseguia esquecê-la e não conseguia deixar de se sentir culpado. Em alguns dias, em seus piores pesadelos, Lisa perguntava o que era maior... o amor ou a culpa.

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