trinta e oito: presa

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Park Jimin abriu a latinha de café quente que comprara em uma das máquinas automáticas mais próximas à praia. Com todo aquele frio, não havia ninguém por ali, a não ser alguns turistas que teimavam em andar pela areia e sentir a água fria do mar por alguns segundos, fosse com as mãos ou com os pés descalços, as calças de inverno emboladas nos tornozelos.

Já fazia alguns anos que ele não vinha a Busan, e não sabia por que aceitara viajar por mais de três horas só para estar ali. E como se não fosse o bastante, estava plantado naquela praia há quase uma hora, encarando as ondas do mar e sentindo o vento lhe congelar as bochechas.

Encolhendo‐se no enorme casaco, Jimin deu um longo gole em seu café, e se assustou quando uma das turistas gritou, pulando e saindo correndo para bem longe do mar. Pelo tom de voz e a risada, Jimin julgou que ela falasse sobre a temperatura da água, mesmo sem ter ideia de que língua falava. Ele revirou os olhos e olhou para o mar outra vez, perdendo-se por longos segundos em uma espiral profunda que lhe tentava trazer preocupações e calafrios. Balançou a cabeça com força, afastando a imagem dos balões de gás hélio coloridos saindo da enorme caixa de presentes no meio da sala de seu apartamento, atropelando-se como uma revoada de pássaros em desespero. Os fitilhos traziam fotografias penduradas em suas pontas, fotos indecorosas e indecentes à altura perfeita dos olhos... seu corpo, seu rosto... cada foto íntima com Kim Sungwoong exposta nitidamente à sua frente. Os gritos de horror e nojo de seu pai, que bateu a porta do apartamento com tamanha força que as paredes chegaram a estremecer, ainda ecoavam em seus ouvidos como se estivesse indelevelmente preso àquele momento.

O grupo de turistas passou perto de Jimin ao sair da areia ruidosamente, despertando-o de suas humilhações.

Conforme andava pela calçada de pedra, encarou o mar e decidiu colocar os dedos na água gelada antes de voltar para Seul. Ainda não sabia o que seu pai lhe diria, o que contaria à mãe, muito menos o que faria ou diria a Kim Sungwoong. Queria não ligar para a reação do pai, mas a cada vez que fechava os olhos, revia a cena dos balões, as fotos, o pai em fúria e descrença. Ouvia-o vociferar enquanto rasgava e amassava as imagens, imediatamente arremessando-as contra o piso. E não podia deixar de se perguntar o que aconteceria com sua carreira quando todos soubessem...

Jimin se aproximou das ondas e se agachou, sem se importar em molhar as botas ou a barra da calça, e sentiu a espuma congelar seus dedos como gelo, compreendendo os turistas escandalosos que gritaram ao sentir aquela temperatura. Ele fechou os olhos, aproveitando a ventania, e acabou por refletir se não seria melhor simplesmente se entregar à força do mar. Afinal, seu pai ficaria mais contente por ter um filho morto do que um filho que lhe trazia aquele tipo de humilhação e desonra.

— Jimin.

Ao ouvir o próprio nome, Jimin virou o rosto.

Kim Seokjin estava parado a apenas dois passos de distância, as bochechas vermelhas, meio sem fôlego. Seu cabelo parecia recém-cortado e o vento levantava-lhe a franja, de modo a deixar a testa à mostra, e Jimin nunca havia percebido como ele era bonito.

O bailarino se ergueu e os dois se encararam.

O som alto e incessante das ondas preencheu a ausência de palavras.

O mar gelado continuou a quebrar aos pés de Park Jimin. O vento frio também bagunçava-lhe a franja, e raios dourados batiam por trás de seus cabelos, agora loiros, concedendo-lhe uma espécie de auréola. E, mesmo sem ter o que dizer, ele entreabriu a boca e exibiu uma expressão de quem queria dizer algo. No meio daqueles lábios volumosos e úmidos, Seokjin observou o dente desalinhado aparecer bem à sua frente, como o sol despontando no horizonte, e acabou imaginando o próprio pai passando o dedo pelo incisivo destoante.

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