trinta e nove: cólera

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Várias vezes durante os dias que se seguiram, Jeongguk saiu de casa sem dizer aonde ia, e Taehyung, que não havia se importado antes, agora estava possuído por uma fúria e uma desconfiança bastante desagradáveis. Depois de tantas cenas de obsessão doentia protagonizadas por Jeongguk, vê-lo tratando-o subitamente com tão pouca importância e escondendo o que quer que fosse dele, deixava Taehyung com o coração inquieto e cheio de emoções que lhe eram odiosas e, em certo grau, incompreensíveis. Não entendia como podia sentir qualquer tipo de ciúme e qualquer uma daquelas sensações que não sabia nomear mas que lhe subiam à mente e a enchiam com pensamentos possessivos e violentos. As imagens que o invadiam o deixavam ainda mais irritado, pois sabia que concretizá-las — bater a cabeça de Jeongguk violenta e sucessivamente contra a parede, ou então esmagar seu crânio com o que quer que estivesse ao alcance de sua mão, o bastante para torná-lo uma massa irreconhecível no assoalho daquela casa, ou quem sabe afogá-lo na banheira ou na piscina, tudo para apaziguar sua ira — significaria perdê-lo. Taehyung estava preso entre sensações inconciliáveis: a vontade de machucá-lo, a frustração de não o poder fazer, e aquela sensação odiosa que decorria do entendimento de que Jeongguk era, sobretudo, alguém de quem não poderia se desvencilhar — porque, no fim, era provável que gostasse dele muito mais do que imaginara. E saber que Jeongguk lhe era muito mais importante do que deveria, ou melhor, que Jeon Jeongguk era alguém que Taehyung tinha total consciência de que não era capaz de matar, ao menos momentaneamente, era ainda mais frustrante. Não havia palavra conhecida que pudesse descrever o que sentia em relação àquilo, e frustração parecia pouco. O furor que trepidava em seu peito toda vez que pensava em Jeongguk o deixava confuso a ponto de gritar e pensar em enfiar os dedos naqueles olhos dissimulados, perfurando-lhe as órbitas até alcançar o cérebro doente, sem se esquecer da língua e das cordas vocais mentirosas que deviam ser arrancadas e penduradas em uma exposição pública. Taehyung começava a temer que estivesse finalmente louco, inteiramente louco, tão fora de si a ponto de implorar a Jeongguk que ficasse ao seu lado e jamais se distanciasse caso não desejasse ouvir algo tão clichê quanto "se não olhar para mim, então não precisará mais de olhos, e se continuar a me contar somente mentiras, então nunca mais precisará falar coisa alguma". Não entendia como podia ter passado de alvo de frases absurdas como "serei o ar nos seus pulmões e o único som nos seus ouvidos" para a humilhante posição de mero reprodutor delas — mesmo que só em pensamento. Ansiava por uma explicação de Jeongguk, esperava pelo momento em que este lhe diria a verdade, talvez se ajoelhando e implorando por perdão. Esperava pelo momento em que Jeongguk cairia em desespero pelo medo de ser abandonado e imploraria por ele como algum devoto implorando por um milagre, desfazendo-se em completo choro. Mas o motivo de se alimentar daquela esperança, de esperar tola e pacientemente pela materialização de seu delírio, era-lhe totalmente desconhecido — mais do que isso, qualquer questionamento sobre o que sentia nem sequer o atingia. Não se perguntava por que ainda não havia matado sua mãe e seu cachorro, por que ainda não o havia seguido em seus sumiços e estourado seu crânio e seu cérebro doente, onde quer que ele estivesse, na companhia de quem quer que fosse. Não queria saber o porquê de ainda não haver ido embora, o porquê de não poder desistir de Jeongguk e terminar seus planos sem tê-lo atormentando-o daquela maneira.

Com o passar de poucos dias naquela rotina solitária e mentirosa, Taehyung ficou tão perdido em seu estado vexatório que começou a perder o contato com a realidade — e com a única coisa que lhe importava desde que fora preso: sua vingança. As notícias de Beom Ho se proliferavam, cresciam e arrastavam seu nome na lama —mesmo morto, Park Jimin continuava a destruir o que Taehyung havia trabalhado tanto para conquistar ao longo de uma década —, mas o escritor parecia ter se esquecido do havia acontecido e de seus objetivos. Nem mesmo Kim Sungwoong ou Jeon Jihyun atingiam seus pensamentos nos últimos dias. Havia momentos em que até mesmo se esquecia de que a pianista estava no andar de cima e que precisava alimentá-la. Esquecia-se de que Sungwoong era o pai de quem devia se vingar. De que o envolvimento dele com Jeon Jihyun desencadeara a loucura e a invalidez de sua mãe, a morte de Lisa, o suicídio da mãe, a prisão de Taehyung.

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