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Radinho.

Aquela manhã tava normal, pelo menos pro morro. Wilbeth havia nos avisado que viria uma pessoa nova para o morro ,filha dele, ou sei lá como ele vai chamar ela. E eu fiquei na responsabilidade de levar ela até o barzinho para a bonita toma café...e bota bonita nisso.Beatriz. Cabelos médios, pretos e ondulados, meio bagunçados, e os olhos castanhos que pareciam enxergar mais do que mostrava. Ela era branquinha, destoava um pouco do lugar, parecia deslocada, mas de um jeito que chamava atenção. Quando vi ela saindo do barraco, toda desajeitada, eu quase ri, mas me segurei.

Encostado na porta, cruzando os braços com o fuzil pendurado, eu tava ali só esperando o momento. Fiquei encarando, aquele sorriso de canto meu era meio involuntário. Tava me divertindo com a situação, sabe? Ela mal me conhecia, mas já se ligava no perigo.

"- E aí, princesa, pronta pra descer o morro?" Soltei, com aquela tranquilidade que aprendi a manter por aqui.

Ela ficou me olhando, meio sem saber o que fazer, mas tentando não mostrar medo. Engraçado como ela tentava ser durona. Eu achava isso interessante. Aí falei que o Wilbeth mandou chamar ela pra tomar café. Claro que ela quis saber quem eu era, porque, até então, eu só tinha dado um oi de longe. Me apresentei rapidão, dizendo que fazia uns corres pro Wilbeth e que hoje tava de escolta dela.

Quando ela saiu de vez, toda preparada, a gente começou a descer o morro junto. A cada passo, eu notava como ela tava desconfortável. As ruas estreitas, a galera falando alto, as olhadas de canto que a gente recebia. Isso pra mim era normal, mas pra ela... dava pra ver que tava tentando entender onde tinha se metido.

"- Sabe, você tá aqui faz pouco tempo, mas logo vai se acostumar. "falei, tentando fazer ela relaxar um pouco.

Ela me respondeu meio irritada, dizendo que eu tava à vontade demais ali. Não pude evitar de dar uma risada curta. Nasci no morro, aquilo tudo era minha casa, meu território.

"- Se você não se adaptar, o morro te engole", disse, mais sério agora. Era verdade, ela ia aprender isso logo.

A gente continuou descendo e, mesmo com o perigo que ela sentia, eu percebia a curiosidade nos olhos dela. O morro tinha esse efeito nas pessoas, era como um bicho selvagem que, se você olhasse de perto demais, te devorava.

Quando chegamos mais perto do barzinho onde o Wilbeth esperava, soltei uma última provocação: "- Então, princesa, tá gostando da hospitalidade?"

Ela, claro, não deixou barato: "- Meu nome é Beatriz. Não é como se eu tivesse muita escolha."

Gostei da resposta. Ela tinha um fogo ali, mesmo com o medo no fundo dos olhos. Falei que ela ia se acostumar rápido. Wilbeth era justo, mas durão, e eu sabia que com a presença dela as coisas no morro iam mudar um pouco. Talvez até pra melhor.

Quando chegamos no bar, lá tava o Wilbeth, sentado com aquele sorrisinho. Eu dei um leve empurrão no ombro dela, só pra quebrar o gelo.

"- Vai lá, Beatriz. Bom café pra você."

Fiquei observando enquanto ela caminhava até ele, e sabia que aquela menina ia trazer muito mais do que ela imaginava pro morro.

O morro tava naquele ritmo de sempre, cheio de vida, molecada correndo pra lá e pra cá, o sol fritando a cabeça de quem se arriscava nas vielas sem um boné. Eu tava na minha, de canto, mas com o olho sempre atento. Tem que ficar ligeiro, né? Mesmo quando parece que nada vai acontecer.

Aí eu vi ela. Sentada no bar do Wilbeth, com ele. Não era só mais uma não, tá ligado? Logo de cara deu pra perceber. Beatriz. Já tinha ouvido falar, mas ver ali, ao vivo, era outra fita. Cabelo bem arrumado, liso, parecia macio. A pele clara destacava naquele cenário todo, meio fora do lugar, como se ela ainda não tivesse se acostumado aonde tinha caído. Usava uma roupa simples, mas que nela parecia diferente. Estilo. Aquela cara de quem tava tentando entender onde tava pisando, mas sem dar bandeira. Sabe como é? O tipo que fica na dela, mas tá vendo tudo. Não era boba não.

IMPUROS-Radinho Onde histórias criam vida. Descubra agora