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Na manhã seguinte, acordei com a luz do sol entrando pelas frestas da janela. O quarto estava tranquilo, mas ainda estranho, como se eu estivesse sonhando e a qualquer momento pudesse acordar na minha vida antiga. Depois de me espreguiçar, levantei-me para fazer minha higiene. Ao abrir a porta do banheiro, ouvi um som diferente vindo lá de fora, seguido de uma batida rápida na porta de entrada.

Terminei de me arrumar rápido e fui ver o que era. Ao abrir a porta, me deparei com o garoto do barracão, o mesmo que tinha me olhado ontem com um sorrisinho estranho. Ele estava encostado na porta, os braços cruzados, e obviamente com um fuzil na mão e uma pistola na cintura me fazendo engolir seco,parecendo à vontade demais para alguém que eu mal conhecia.

-E aí, princesa, pronta pra descer o morro? - ele disse, dando um sorriso de canto.

Eu o encarei por um segundo, tentando entender o que ele estava fazendo ali, mas ele parecia tão relaxado que me desarmou.

-O Wilbeth mandou te chamar. Disse que era pra você descer lá pra tomar café. - Ele se inclinou um pouco para trás, quase como se estivesse tentando parecer mais confiável.

-E quem é você mesmo? - perguntei, desconfiada, enquanto fechava a porta atrás de mim.

-Ah, claro. Me chamo Radinho. Sou daqui do morro, faço uns corres pro Wilbeth e... bom, hoje tô de escolta. – Ele piscou, como se o assunto fosse a coisa mais natural do mundo. – Vem comigo, bora tomar café.

Eu dei de ombros, sem muita escolha, eu entrei em casa indo até meu quarto pegando um shortinho,e uma camisa de botão meio roxa,vestindo apenas um tênis,eu saia e me aproximava de "radinho",eu saia e comecei a descer o morro com ele. As ruas estreitas e cheias de gente me faziam sentir desconfortável. Cada esquina parecia um novo cenário de tensão. Radinho, porém, não parava de falar, e parecia se divertir com minha hesitação.

-Sabe, você tá aqui faz pouco tempo, mas logo vai se acostumar. E já aviso, você vai ser dar bem se você souber onde se meter e com quem andar. – Ele falava com uma familiaridade assustadora, como se todo o caos ao redor fosse parte da rotina.

-Parece que você já tá bem à vontade aqui... - respondi, um pouco irritada com a leveza dele, enquanto eu mal conseguia relaxar.

-E por que não estaria? Nasci aqui. E se tem uma coisa que aprendi, é que se você não se adaptar, o morro te engole. – Ele deu uma risada curta, quase amarga.

Continuamos descendo, e cada vez mais eu sentia que o caminho era uma mistura de perigo e curiosidade. O morro tinha vida própria, as pessoas falavam alto, riam, mas o tempo todo eu sentia olhares pesados em minha direção. Radinho parecia ignorar tudo aquilo, como se fosse uma caminhada no parque.

-Então, princesa, tá gostando da hospitalidade? – Ele perguntou, quebrando o silêncio enquanto descíamos uma ladeira íngreme.

-meu nome e Beatriz. Não é como se eu tivesse muita escolha, né? – respondi secamente.

Ele deu uma risada de novo, mas dessa vez mais suave, quase compreensiva.

-beleza então Beatriz. É, pode crer. Mas se serve de consolo, você se acostuma rápido. O Wilbeth pode ser durão, mas ele é justo. E com você aqui, parece que as coisas vão ficar mais interessantes.

-Como assim? – perguntei, desconfiada.

-Ah, nada não... Só tô dizendo que a vida aqui no morro às vezes precisa de um toque diferente. E, com esse rolo do wilbeth,vai render fofoca pelo resto do ano .

Ele não elaborou, e eu não perguntei mais. Logo chegamos à um Barzinho, onde havia uma mesa com algumas pessoas sentadas. Wilbeth estava ali, me esperando com um sorriso. Radinho me deu um leve empurrão no ombro.

IMPUROS-Radinho Onde histórias criam vida. Descubra agora