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Radinho andava pelas ruas do Dendê, cabeça baixa, as mãos dentro do capuz da jaqueta. Ele não queria ser notado, não naquele momento. A tensão estava sempre lá, como um medo persistente, mesmo quando ele estava fazendo o que precisava fazer. A missão era simples: criar uma distração, ganhar tempo. Ele precisava de Roberto distraído por algumas horas, tempo suficiente para que Foguinho pudesse garantir a Beatriz a chance de ir ao baile. Não era seguro que ela soubesse que ele estava vivo ainda, mas ele precisava ver seu rosto, mesmo que fosse de longe.

Ele caminhava lentamente, parecendo desinteressado, até chegar perto da casa onde Foguinho morava. Radinho não entrou pela porta da frente; em vez disso, seguiu o caminho mais arriscado, contornou a casa e subiu em um pequeno muro, movendo-se com cuidado até chegar a uma janela aberta. Era assim que ele fazia quando criança, invadindo casas para pegar comida ou evitar encontros indesejados.

No momento em que ele se inclinou para dentro, viu Foguinho dançando na sala, sua cabeça balançando com a batida de uma música qualquer que tocava em volume baixo. A sala estava iluminada por uma TV ligada, as luzes piscando nas paredes enquanto Foguinho seguia o ritmo com um sorriso no rosto. Radinho riu baixinho ao vê-lo agir assim, tão relaxado em meio ao caos que os cercava.

-Porra, cara, tu parece um idiota dançando aí sozinho!- Radinho disse, mas a voz estava cheia de carinho, o medo de que nunca mais pudesse ver Foguinho apagado momentaneamente pela familiaridade daquele lugar e daquele amigo.

Foguinho pulou ao som da voz de Radinho, derrubando o controle remoto que segurava. "Caralho, porra, moleque! Tu quase me matou de susto!" Ele se virou rapidamente, a expressão de surpresa dando lugar a um alívio imediato quando viu quem estava ali.

Radinho olhou ao redor, para ter certeza de que ninguém estava ouvindo. --Escuta, tu conseguiu convencer a Bia a ir no baile, né?

Foguinho balançou a cabeça animado, quase saltitando no lugar. -Consegui, mano. Tá meio hesitante, mas consegui botar a ideia na cabeça dela. Tu sabe que ela não aguenta essas coisas, né? Mas eu acho que fazer alguma coisa diferente vai fazer bem pra ela.

-Isso é bom- Radinho murmurou, respirando fundo. Ele passou a mão pelo cabelo, tentando manter a calma. -Eu vou até lá, vou ficar longe, prometo. Só preciso ver ela de longe, maninho. Depois, volto logo.

-Não pode aparecer, cara -Foguinho insistiu, sua voz mais baixa. -Roberto e os caras dele não podem ver tu, senão vai dar merda pro Dendê inteiro.

Radinho fez um sinal positivo com a cabeça. -Eu sei, eu sei, Foguinho. Mas eu preciso... Cê vai ficar de olho na Bia, né? Cuidar dela?

"Claro, mano," Foguinho respondeu, a voz mais firme. -Vou cuidar dela.Tu promete que vai dar o fora quando eu disser?

Radinho assentiu, e os dois trocaram um olhar sério, a conexão silenciosa entre eles mais forte do que qualquer palavra poderia expressar. -Prometo, mano. Eu só queria... ver ela, sabe? A última vez que vi, ela tava perdida e eu não podia fazer nada.

-Vai dar certo, irmão -Foguinho disse, tocando o ombro de Radinho. -Eu vou levar ela lá, e você vai ficar de longe.

Radinho pegou uma garrafa de água que estava em cima da mesa de centro, dando um gole longo. -Depois que tudo isso acabar, a gente vai voltar a ser normal, certo? A gente e a Bia, juntos de novo?

Foguinho deu um tapinha amigável nas costas de Radinho. -Claro, cara. Isso é só uma pausa. Vai dar tudo certo, eu prometo.

Antes que Radinho pudesse responder, Foguinho apertou sua mão e sussurrou: -Vai lá, mano. Vou cuidar da Bia. Confia em mim.

Radinho saiu pela janela novamente, deslizando para fora com cuidado. Ele deu um último olhar para Foguinho, e não pôde evitar o pequeno sorriso no canto da boca. Ele se afastou rapidamente, desaparecendo na noite.

IMPUROS-Radinho Onde histórias criam vida. Descubra agora